

[Ante-Scriptum]
Em tempo de guerra as actividades lúdicas, tal como as actividades artísticas, ganham
novos significados, tornam-se actividades contra-a-corrente.
De facto, que comportamento pode ter o cidadão comum que não seja, pacíficamente,
o de fazer guerra à guerra?
Duas fotografias, dois fotógrafos, duas nacionalidades, dois artistas famosos nos seus
estúdios. Com semelhanças e com diferenças. Quais serão?
(clickar imagens para ver tamanho ampliado)
Após uma curta ausência para descansar, seguirão as legendas. Lá para 3ª feira.
[R]
Fotografia > Arnaldo Fonseca (1868-1936?), Portugal
> Raphael Bordallo Pinheiro no seu estúdio, Caldas da Rainha, s/d (c.1900)
(foto © FH/CRO)
Fotografia > Edward Steichen (1879-1973), Luxemburgo/EUA
> Henri Matisse et "La Serpentine", Paris, 1909
(foto © FH/CRO)
[Adenda > 7.8.2006]
Post completado ao ritmo das férias:
Bordallo e Matisse, ambos de bata branca, olham atentamente as suas obras tendo
na mão o teque com o qual aparentemente se propõem executar retoques finais.
E ambos posam para a fotografia encenando esse momento do trabalho em que um
artista, carregando quase sempre a dúvida, se prepara para dizer a si próprio: "já
chega, está pronto!".
Também se verificam algumas semelhanças de composição fotográfica- vejam-se as
oblíquas, a partir do topo das peças seguindo até à cabeça e costas dos artistas. As
duas imagens denunciam, porém, formações estéticas diferentes, intensionalidades
diferentes do olhar fotográfico:
-- o olhar documentalista de Arnaldo Fonseca, que retrata Bordallo à distância,
mostrando também o atelier de cerâmica com as múltiplas geometrias do espaço
envolvente, e as bizarras relações de escala entre o artista e a sua obra (como se esta
fosse um bibelot gigante);
-- o olhar pictorialista de Edward Steichen, que retrata Matisse numa perspectiva
mais próxima, o homem e a escultura ocupando o espaço todo, concentrando-se o
fotógrafo no rosto fortemente iluminado de Matisse que, por sua vez, concentra o seu
olhar na zona do sexo (que nós não vemos) da estatueta feminina, ídolo que se
agiganta, revelando-nos simultâneamente a enigmática tensão entre arte e eros.
No campo editorial, as duas imagens tiveram destinos obviamente diferentes:
-- o retrato de Bordallo, por Arnaldo Fonseca, supostamente manteve-se inédito até
agora, não aparecendo na extensa fotobiografia publicada por ocasião do centenário
da morte do artista (João Paulo Cotrim, Rafael Bordalo Pinheiro - Fotobiografia,
ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2005);
-- o retrato de Matisse, por Steichen, foi publicado em Nova Iorque pela célebre
revista de Alfred Stieglitz, Camera Work (nº42/43, 1913), tendo sido inclusivamente reproduzida por Beaumont Newhall em The History of Photography (1982).
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Etiquetas: Arnaldo Fonseca, Edward Steichen, fotografia, Henri Matisse, Rafael Bordallo Pinheiro