terça-feira, julho 18, 2006

CPLP



Na sequência da recente cimeira da CPLP em Bissau, na qual o presidente brasileiro
Lula da Silva não se fez representar, veja-se o Tugir.

O problema das relações de Portugal com as suas antigas colónias, incluindo o Brasil,
parece-me ser prévio às questões multilaterais no âmbito da CPLP. Trata-se, a meu
ver, de um problema estrutural das relações do Estado português com cada um
dos Estados desta organização, particularmente com os africanos. É que Portugal não
tem sabido assumir a sua vocação como referência histórica comum, nem no campo
da difusão da língua portuguesa nem noutros sectores da cultura e das artes. Os
Centros Culturais Portugueses mantêm uma presença algo envergonhada nas
capitais lusófonas, enquanto a actividade cultural dos países lusófonos continua com
baixos níveis de visibilidade entre nós.
Em síntese: Ainda que alguma coisa vá sendo feita, Portugal não cumpre as suas
obrigações para com os povos que colonizou.
E curiosamente, verificamos que o estreitamento dos laços culturais, em vez de
corresponder a projectos estratégicos neste campo, resulta mais dos acasos de um
qualquer campeonato de futebol. Fica barato, lá isso fica, mas empobrece outros
entendimentos.
Quanto ao Brasil, que criou recentemente na cidade de São Paulo um grande Museu
da Língua Portuguesa
, o que lhe falta como denominador comum, afinal não lhe
falta como estratégia. E sem precisar de alianças com o distante pater português.
(R)

(Adenda > 20.07.06)
Sobre este assunto, ver novos desenvolvimentos (em actualização), também no Tugir:
A FRAQUEZA DA CPLP > tugir.blogspot.com/2006/07/0_115331091547912967.html
SEMPRE HÁ INTERESSE > tugir.blogspot.com/2006/07/0_115335415586046864.html
LUSOFONIA - TRAUMAS > tugir.blogspot.com/2006/07/0_115342947287644691.html
(R)

Fotografia > Mário Cardoso
> Exposição do Mundo Português - Secção Colonial, 1940 (foto © FH/CRO)
(R)

7 Comentários:

Blogger maria escreveu...

Nós somos um povo complexado, temos vergonha de ter sido colonizadores e temos receio de aparecer e que nos lembrem esse facto. Será? Outros não têm e vão ocupando um espaço que devia ser nosso.

19 julho, 2006 19:13  
Blogger Heliocoptero escreveu...

Ainda estou a tentar digerir uma entrevista do senhor à frente da CPLP que veio dizer que a lusofonia não é o elemento elemento central que liga os países membros (porque neles se fala outras línguas que não o português)...

Portanto, do facto de o mirandês ser a segunda língua oficial em Portugal deve-se concluir que não temos laços linguisiticos directos com o Brasil que merecem ser aprofundados, valorizados e revitalizados?

19 julho, 2006 22:42  
Anonymous Roteia escreveu...

A Maria tocou no ponto: os complexos colonialistas do último dos descolonizadores. Salazar continua a rebolar-se na tumba, com risinhos de déspota esclarecido.

Heliocoptero: desconhecia esse comentário do dirigente da CPLP... De certeza que não é anedota?

O facto é que, sobretudo os africanos, sentem que os portugueses os lançaram às feras. Porque será que nas feiras do livro, em Luanda ou em Bissau, os livros portugueses esgotam logo no primeiro dia? Porque será que as publicações excedentárias, que as editoras vendem por cá ao preço da uva mijona, não são colocadas em dois ou três barcos dirigidos a quem está ávido de leitura em português? Porque será que as editoras, com o devido apoio do estado, não desenvolvem políticas editoriais consistentes destinadas aos países lusófonos?

20 julho, 2006 00:28  
Anonymous Anónimo escreveu...

Porque dá muito trabalho, gente...

20 julho, 2006 01:55  
Anonymous Bolota escreveu...

Em 2005 estive em Moçambique. Impressionou-me a frequência com que as pessoas me referiam a vontade de que houvesse mais portugueses a trabalhar e a investir no país. Não pude constatar o mesmo interesse em investimento brasileiro, por exemplo. E ao mesmo tempo, uma certa aversão à predominância sul-africana que por lá se faz notar. Ora se dinheiro é dinheiro, que diferença lhes fará que sejam os sul-africanos ou os portugueses a levá-lo para lá?
A ponte cultural tem alicerces sólidos, só falta construir algo mais em cima deles.

20 julho, 2006 12:37  
Anonymous Roteia escreveu...

Não apenas, Anónimo, porque dá muito trabalho. Mas sobretudo porque sendo Portugal um país de "grandes gestos" (veja-se por exemplo a reacção nacional ao caso da independência de Timor), esquecemo-nos com frequência dos pequenos e necessários gestos do quotidiano de que são feitas as estratégias de médio e longo prazo. Falta o sentido de projecto.

20 julho, 2006 13:25  
Anonymous Roteia escreveu...

Bolota:
Além do sentido de estratégia e do sentido de projecto, em que continuamos a falhar redondamente, há também aquela característica da nossa ultraperiferia latinória: a difícil generosidade (ou solidariedade), apenas em resultado de paixões, raramente em resultado de um pensamento estruturado.

20 julho, 2006 13:37  

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