sábado, agosto 04, 2007

O PECADO DE DALILA



É sabido que os assuntos de política cultural e os acontecimentos artísticos do
país raramente merecem a atenção dos orgãos de informação, particularmente
das televisões, que privilegiam quase sempre o que julgam ser o interesse dos
consumidores, isto é, economia, desporto, escândalos e cataclismos. Na categoria
"escândalos" foi agora amplamente noticiado o afastamento da mediática Dalila
Rodrigues do cargo de directora do principal museu português, o Museu Nacional
de Arte Antiga > MNAA, e a sua substituição por Paulo Henriques, actual director
do Museu do Azulejo.
Na generalidade dos media, e também na blogosfera, as vozes de indignação
substituiram-se às questões de fundo. Independentemente do dinamismo que
Dalila imprimiu ao MNAA nos últimos três anos e dos bons resultados obtidos,
em termos de adesão de público e de receitas, o caso implicaria um debate sobre
a pertinência das políticas museológicas do Estado, uma vez que desde há muito
os museus portugueses vêm sendo menorizados, como se os tesouros patrimoniais
neles reunidos, não passassem de parentes pobres.
Perde-se assim uma boa oportunidade para debater e questionar. Os museus
portugueses são ou não são geridos e divulgados de acordo com as necessidades
do público e as estratégicas culturais do país? O modelo de gestão que Dalila
reivindicou publicamente, é ou não é o mais apropriado? Será legítimo que Dalila
tenha vindo protestar nos media contra as políticas do Instituto dos Museus e da
Conservação > IMC (ex-IPM)?
O erro de Dalila não tem a ver com a defesa das suas ideias, tem a ver com o facto
de ter usado o seu estatuto de competência, para fazer publicamente um combate
político ao próprio organismo que a tutela, o IMC, possivelmente convencida de
que os êxitos obtidos no exercício do cargo a colocavam acima das regras de
relacionamento institucional. A audácia saiu-lhe cara. E afinal, todos nós perdemos
quando alguém competente perde a razão.

[Adenda > 05.08.2007]
O caso Dalila Rodrigues transformou-se num enorme escândalo, com consequências
políticas ainda imprevisíveis: depois de dois partidos, o CDS/PP e o PSD, terem
exigido que a Ministra da Cultura se explique no Parlamento, círculos próximos do Primeiro-Ministro afirmam que este não terá sabido de nada e que discordaria
da "metodologia", o Presidente da República declarou a jornalistas o seu apreço
pelo trabalho de Dalila, 16 directores de museus nacionais vieram a público com
um despropositado abaixo-assinado em que se demarcam das posições assumidas
pela directora do MNAA, a que esta respondeu dizendo compreender a posição dos
seus colegas, para garantirem o emprego.
Entretanto os blogues que não estão de férias insurgem-se maioritariamente
contra o que chamam "saneamento ou perseguição à competência". Corre ainda
uma petição online intitulada "Carta Aberta de Apoio a Dalila Rodrigues": http://www.petitiononline.com/Dalila/petition.html .
Dito isto, vou visitar a exposição "O Tapete Oriental em Portugal", no MNAA.

Pintura > Pieter Paul Rubens (1577-1640), Bélgica (Flandres)
> Sansão e Dalila, c. 1609, National Gallery, Londres.
[R]

Pesquisar Dalila Rodrigues [links]
> CDS/PP compara afastamento de D. R. a "prática estalinista" (CDS/PP, Concelhia de Lisboa)
> Dalila e os filisteus (DBH, 31 da Armada)
> Dalila Rodrigues "afastada"... (Alexandre Matos, Mouseion)
> Dalila Rodrigues afastada do MNAA > Arte antiga e cultura de hoje (Alexandre Pomar)
> Dalila Rodrigues Out > Cavaco & Dalila (Eduardo Pitta, Da Literatura)
> Dualidades em dia de Verão > Quem tramou Dalila Rodrigues (LNT, Tugir)
> Quem quer deixar de ser governo - desenvolvimentos (Rui MCB, Adufe)

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quarta-feira, novembro 15, 2006

PROMETEU E PANDORA



Será que a crença na economia de mercado é portadora de felicidade e nos torna mais
livres? Ou será que os novos mitos do consumo apenas nos remetem para a condição
de consumidores consumidos? Será que os deuses dos antigos gregos fundadores da
nossa civilização continuam a punir-nos?

Segundo a mitologia grega, quando os deuses do Olimpo criaram a espécie humana
privaram-na do fogo, o elemento da inteligência. Porém, o titã Prometeu, afeiçoado
aos mortais, decidiu roubar o fogo que era atributo divino e entregá-lo à humanidade.
A ira de Zeus foi terrível: ordenou que Prometeu fosse enviado para a terra dos
homens e aí ficasse agrilhoado a uma coluna, de modo a que durante o dia o seu fígado
fosse devorado por uma águia e durante a noite se regenerasse, para ser devorado de
novo no dia seguinte, até à eternidade.



Mas Zeus, ainda não satisfeito, decidiu lançar uma maldição sobre a humanidade,
enviando à Terra uma mulher irresistível, a bela Pandora, para que entregasse a
Prometeu uma caixa repleta de todas as pragas: doenças, medo, ódio, tristeza,
loucura, e um sem número daqueles que viriam a ser os males da condição humana.
Prometeu, desconfiando da crueldade de Zeus, recusou a caixa e recomendou a
Pandora que não a abrisse. Curiosa, ela não resistiu e acabou por abri-la,
espalhando assim o sofrimento sobre a Terra. Porém, na sua fúria vingativa, Zeus
tinha deixado na caixa, por engano, a Esperança.
[Bolota]

Pintura > Pieter Paul Rubens (1577-1640), Bélgica (Flandres)
> Prometheus, 1611/1612, Col. Philadelphia Museum of Art, USA

Fotografia/Cinema > G. W. Pabst (1885-1967), Áustria/EUA
> Louise Brooks, in "Pandora's Box", 1929.
Adenda: v. Louise Brooks no Sub Rosa.
[R]

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