Segunda-feira, Julho 07, 2008

JOSÉ M. RODRIGUES, EM ÉVORA



José M. Rodrigues - Antologia Experimental, no Palácio da Inquisição, em Évora,
ao longo deste Verão. Lê-se num texto parietal da exposição:

"Antologia Experimental" (1972-2008), reúne segmentos do percurso
fotográfico de José M. Rodrigues explorando relações múltiplas entre
fotografias das últimas duas décadas e o trabalho experimentalista realizado
sobretudo na década de 1980, período em que o artista, então a residir na
Holanda, manteve estreitas ligações com os movimentos de vanguarda do
centro da Europa.

Fotógrafo dos pés à cabeça (ou da cabeça aos pés), José M. Rodrigues diz
que
não saberia viver sem fotografar. Uma confissão apaixonada de quem
fotografa
de corpo inteiro e para quem o experimentalismo foi uma zona de
pura respiração,
que cruza até hoje com as práticas fotográficas clássicas.
Ao contrário dos escultores ou pintores que afirmam utilizar a fotografia para
dizer aquilo que não poderiam dizer de outro modo, José M. Rodrigues tem
utilizado outras linguagens - instalação, objectos tridimensionais, vídeo,
performance - para explorar e aprofundar aquilo que pretende dizer como
fotógrafo. Mais do que um trabalho implicando a diluição de fronteiras entre
a fotografia e as outras disciplinas, trata-se fundamentalmente de uma fusão
de linguagens ao serviço da fotografia. Este aspecto talvez deva considerar-se
a principal originalidade do seu percurso experimental, por comportar uma
misteriosa unidade contida na diversidade, a par de factores de irreverência
que o artista subordina ao sentido da ordem. José M. Rodrigues toma como
suas as palavras do pintor George Braque:
"Amo a regra que corrige a emoção,
amo a emoção que corrige a regra".

Foto-objecto > José M. Rodrigues (n. 1951), Portugal
> S/título, Amsterdam, 1985/2008. Sequência de diapositivos em caixa de luz,
no Palácio da Inquisição, Évora.
[R]

Etiquetas:

Domingo, Junho 01, 2008

[citação 30]
SE ELA UM DIA ADORMECER COM CEREJAS



Se ela um dia adormecer com cerejas junto ao pequeno
respirar, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros - e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando - escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome (...)


Citação/Poema > Herberto Helder (n.1930), Portugal

> As Musas Cegas, VII


Fotografia > Julia Margaret Cameron (1815-1879), Reino Unido
> Rachel Gurney, I Wait, 1872, col. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles
[P]

Terça-feira, Maio 06, 2008

JOSÉ M. RODRIGUES, EM LISBOA



Abriu com Elementos, de José M. Rodrigues, a nova galeria Pente 10.
A exposição apresenta trabalhos recentes a cores e preto e branco, alguns deles
em grande formato, mas também objectos e uma instalação. O conjunto
diversificado de obras, dialogando entre si, parece resumir as preocupações
do autor ao longo do seu percurso e apontar simultâneamente alguns caminhos
novos. A não perder.

Dedicada a projectos artísticos predominantemente contemporâneos na área
da fotografia, a Pente 10, dirigida por Catarina Ferrer, está situada no centro
de Lisboa, na Trav. da Fábrica dos Pentes, nº 10, junto ao mágico Jardim das
Amoreiras, bem próximo do Museu Arpad/Vieira da Silva. O espaço interior
da galeria, com projecto do arquitecto Francisco Aires Mateus, possui dois pisos
com salas de exposição, um dos quais integra um compartimento "caixa negra",
destinado a instalações de arte e projectos especiais.

Fotografia > José M. Rodrigues (n. 1951)
> Valência, 2007
[R]

Etiquetas:

Sexta-feira, Abril 25, 2008

REVOLUÇÃO, DE NOVO


1974
Comemorações da Revolução dos Cravos . Ultraperiférico
2008

Impossível não comemorar a Revolução dos Cravos, 34 anos depois. Basta lembrar
que entre 1926 e 1974 o país viveu isolado do mundo, e que durante esse quase
meio século de grandes transformações culturais e sociais, Portugal se distanciou
tragicamente da Europa, como se dela não fizesse parte.
Um balanço dos anos posteriores à Revolução, leva-nos a constatar que, à excepção
das mudanças ditas estruturais resultantes da vivência democrática, persistem na
sociedade portuguesa mentalidades, hábitos e idiossincrasias que contrariam uma
verdadeira condição europeia.
O tempo perdido não se recupera, é certo, mas diagnosticar as fragilidades talvez
contribua para combater a inércia e a mediocridade.
E se outros motivos não houvesse, onde é que já se viu deixar de comemorar uma
revolução feita com flores?

Colagem > Ana Hatherly (n.1929), Portugal
> Da séria As ruas da cidade, 1977, Col. CAM/FCG, Lisboa
[R]

[Adenda]
Impressionante a evocação dos portugueses mortos pela ditadura, no Branco Sujo.
Mas a pergunta é: e os portugueses que ao longo daqueles anos morreram por dentro?

Etiquetas:

Quarta-feira, Abril 09, 2008

CONTACTO



Não sei se deva chamar-se cedência ortográfica ao acordo de que tanto se fala.
Não entendo bem para que serve. É coisa cultural, diz-se. É só para eliminar
da língua o supérfluo, visto que o acordo não inclui alterações de sintaxe nem
de pronúncia, apenas de ortografia. Sim, mas... se em lugar de acção, direcção,
protecção, adopção, passamos a escrever ação, direção, proteção, adoção,
a tendência não será para ler a-ção, dir-ção, pru-teção, adu-ção? Falta saber
se corrector passa a corretor, nesse caso, como o corretor da Bolsa tem o direito
de corrigir, lemos que o corretor é corretor.
E como as palavras graves ou paroxítonas deixam de levar acento, passa a
escrever-se, por exemplo, boia em vez de bóia, e como a bóia até boia, lemos
que a boia boia.
E como os cidadãos não têm voto nesta matéria, resta-nos ceder com tacto
ao acordo, ou então aceder com tato à cedência. Contato com tato. Será?
[P]

Fotografia > Hiroshi Sugimoto (n.1948), Japão
> North Atlantic Sea, 1996
[R]

Segunda-feira, Março 17, 2008

HOJE



No dia em que os professores de todo o país reunem para avaliar os seus alunos,
porque a avaliação é para os professores um dos actos essenciais do sistema de
ensino, e porque se considera também que a avaliação do próprio sistema, escolas
e professores, é igualmente indispensável, transcreve-se o seguinte documento
do Departamento de Línguas da Escola Secundária D. Maria II, Braga, divulgado
no blogue Movimento Escola Pública:

Atendendo a que, sem fundamento válido, se fracturou a carreira docente em duas: professores titulares e não titulares;

Atendendo a que essa fractura se operou com base num processo arbitrário, gerando injustiças inqualificáveis;

Atendendo a que os parâmetros desse concurso se circunscreveram, aleatória e arbitrariamente, aos últimos sete anos, deitando insanemente para o caixote do lixo carreiras e dedicações de vidas inteiras entregues à profissão;

Atendendo a que, por via de tão injusto concurso, não se pode admitir, sem ofensa
para todos, que seguiram em frente só os melhores, e que ficaram
para trás os que
eram piores;


Atendendo a que esse concurso terá repercussões na aplicação do assim chamado
modelo de avaliação, já que, em princípio, quem por essa via
acedeu a titular será
passível de ser nomeado coordenador e, logo,
avaliador;

Atendendo a que, por essa via, pode muito bem acontecer que o avaliador seja menos qualificado que o avaliado;

Atendendo a que o modelo de avaliação é tecnicamente medíocre;

Atendendo a que o modelo de avaliação é leviano nos prazos que impõe;

Atendendo a que o modelo de avaliação contém critérios subjectivos;

Atendendo a que há divergências jurídicas sérias relativas à legitimidade deste modelo;

Atendendo a que o Conselho Executivo e os Coordenadores de Departamento foram democraticamente eleitos com base nas funções então definidas para esses órgãos;

Atendendo a que este processo, a continuar, terá que ser desenvolvido pelos anunciados futuros Conselhos de Escola, Director escolhido por esse Conselho,e pelos Coordenadores nomeados;

Nós, professores do Departamento de Línguas, da Escola Secundária D. Maria II, não reconhecemos legitimidade democrática a nenhum dos órgãos da escola para darem continuidade a um processo que extravasa as funções para as quais foram eleitos;

Mais consideram que:

Por uma questão de dignidade e de solidariedade profissional, devem, esses órgãos, suspender, de imediato, toda e qualquer iniciativa relacionada com a avaliação;

Caso desejem e insistam na aplicação de tão arbitrário modelo, devem assumir a quebra
do vínculo democrático e de confiança entre eles próprios e quem os
elegeu, tirando
daí as consequências moralmente exigidas.

[R]

Fotografia > Paulo Catrica (n.1965), Portugal
> in Liceus, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 (via Sais de Prata e Pixels).
[R]

Domingo, Março 16, 2008



[PF #13] Perfurações.

No Insónia, Henrique Fialho protesta contra a proposta de lei que permitirá
à ASAE passar a fiscalizar, não apenas os sítios públicos, mas também os sítios
púbicos
supostamente privados. Ora, o que a ASAE pretende, é apenas manter
os bons costumes, a moral. Até porque em tempos ainda houve no país umas
suspeitazitas de corrupção, de pedofilia, de crimes de colarinho branco, de jogos
de interesses autarquias/construção civil, de futebol/autarquias, ou diversos
outros vice-versas. Mas não. Está categoricamente provado que Portugal é um
país de cara lavada, repleto de gente de bem, sem o mais leve resquício de dívidas
ao fisco, gente que vai à missa ao domingo, que vive pacatamente em seus pacatos
condomínios fechados. Está tudo nos conformes, incluindo a situação económica
criada por Cavaco no tempo das vacas gordas, temos sol, pobrezinhos já não há,
a classe média floresce como a Primavera em todo o seu esplendor. E vem agora
esta malta nova a querer abalar a ordem vigente ostentando brincos e piercings
e tal. Ainda por cima devem ser todos uns fumadores do caraças. Dá mau aspecto.
Portanto, deixem lá a ASAE continuar a zelar pelo progresso do país, providenciando
a saúde dos cidadãos. É tudo feito a pensar em nós, não é?

Etiquetas:

Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

JIM DINE TODOS OS DIAS








> clique em cada coração para ampliar <
E porque "un corazón solitario no es un corazón" (Antonio Machado)
faça a sua escolha.


Pinturas > Jim Dine (n.1935), EUA
v. Jim Dine
[R]

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

ENTRUDO, O ADEUS À CARNE



O carnaval tradicional desapareceu. Sobram resíduos folclóricos em pequenas
localidades, mais os carnavais urbanos progressivamente desenraizados, mais os
carnavais das máquinas de indústria turística. Vieram os corsos, crescentemente
abrasileirados, imitação barata das grandiosas fantasias tropicais, mimetismo saloio
de pobrezinhos com meninas seminuas num frio de rachar, e estrelas brasileiras de
telenovela. Escolas de samba do Minho ao Algarve, e todo o mundo sambando
avenidas fora, sambando aos ritmos baianos e cariocas nas cidades pequenas de
Portugal. E nós que levámos o entrudo para o Brasil, importa-mo-lo agora de lá.
A identidade carnavalesca deu à sola, a criatividade do povo luso extinguiu-se ou
domesticou-se. Uns porque são avessos a folias, outros porque a tradição já não é
o que era, outros porque já bastam as máscaras do dia a dia. Todos amargurados
e amolecidos pela tal crise de que tanto se fala, sem vontade de rir.
E findo o entrudo só nos resta esperar pelo próximo 31 de Outubro, a ver se é
desta que o (lusitaníssimo!!!) Halloween passa a feriado nacional, colado ao feriado
do Dia-de-Todos-os-Santos.

Objecto etnográfico > Anónimo, Portugal
> Máscara transmontana, séc. XX., Bragança, Museu do Abade de Baçal.
[R]

Domingo, Janeiro 27, 2008

O ALVO
(ou a ética e a táctica na política)




A atenção que este blogue dedica aos chamados assuntos da ordem do dia é, por
convicção, tão reduzida quanto possível. Estamos a falar daqueles assuntos que,
por determinação dos nossos media, adquirem o estatuto de actualidade.
Mas quando, de repente, se torna indispensável noticiar e debater as reais
possibilidades de Portugal ser alvo de acções terroristas por parte do
fundamentalismo islâmico, não podemos deixar de questionar por que motivo
é este o momento de quebrar o tabu. Claro, o facto de Espanha ter dado o alerta,
parece ter-nos acordado. De súbito, deixámos de ser incólumes.

No entanto, não é de agora que Portugal passou a ser um alvo potencial. Desde
o 11 de Setembro que esse risco se tornou claro. Não se deu por isso, à conta da
velha ideia de que somos insignificantes no contexto europeu, sem dimensão nem
visibilidade internacionais. Subestima-se sistematicamente o prestígio do país,
ignora-se que para o mundo árabe o nosso estatuto histórico ainda não foi
esquecido, do mesmo modo que, sobretudo no sul do território português, as
ancestrais tradições mouriscas permanecem vivas muitos séculos depois da
cristianização total do território e da consequente expulsão dos mouros, aliás
posteriormente perseguidos pelos "cruzados" portugueses no norte de África.

Por outro lado, a exposição mediática a que Durão Barroso, então primeiro ministro,
sujeitou o país, quando da nefasta cimeira dos Açores de 2003, não deixou margem
para dúvidas: ficámos na lista dos alvos preferenciais. Mas a "cruzada" de Barroso
era outra: tinha como alvo as suas manifestas ambições de carreira política externa,
aposta ganha pelo próprio, independentemente das qualidades que possam ser-lhe
reconhecidas no cargo que ocupa na União Europeia. Certamente imbuido da tal
ideia pequena de que Portugal é um país pequeno, Barroso desvalorizou riscos e responsabilidades, para atingir o seu alvo. Esperemos agora que o fundamentalismo
islâmico não atinja o seu.

Ver no Ultraperiférico estes posts antigos, e este mais recente.

Fotografia (reedição) > Foto Camacho (Portugal)
> Açoteias, Olhão, 1966 (foto © FC/CRO).
[R]

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

ANO 2



Tarda por motivos vários (traições do novo template, por exemplo) a prometida
renovação desde blogue, prematuramente anunciada em Novembro. Entretanto
assinalamos a data do segundo aniversário porque, embora não pareça, as coisas
estão a mexer.
[P]

Fotografia > Duane Michals (n.1932), EUA
> A story about a story,
1995
[R]

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

MAUS HÁBITOS



Desejamos um bom ano de 2008 a todos os fumadores activos e passivos, sem
discriminação. E que a revogação dos excessos legislativos esteja para breve.

A fotografia das senhoras acima, fumando desalmadamente à porta do refeitório
conventual, é uma reedição de imagem tirada do post em que se escreveu sobre o
vício que tanto atormenta puritanistas e legisladores portugueses.
[R]

Leituras fumegantes:
> Sérgio Lavos: Eu, pecador, me confesso
> Daniel Oliveira: Santos da casa
> Fernanda Câncio: O inspector, a lei, a cigarrilha, o casino e o país pacóvio
> Irmão Lúcia: Bem prega frei ASAE

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

TÃO ALTA




Ó águia que vais tão alta
voando de pólo em pólo

leva-me ao céu onde eu tenho

a mãe que me trouxe ao colo


A mãe que me trouxe ao colo

que me está fazendo falta

voando de pólo em pólo

ó águia que vais tão alta.

Em Dezembro, neste dia, em pensamento.
[P]

Versos > Canto popular alentejano
Vozes > Amina Alaoui (n.1964), Marrocos
> Grupo Coral da Casa do Povo de Serpa, Portugal
com a Orquestra Sinfónica de Córdoba, Espanha
in Terra de Abrigo, ed. Ocarina, 2003
Fotografias > Propranolol, Ultraperiférico.
[P]

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007



[PF#12]
Tratado.
Enquanto o Ultraperiférico não avança com a prometida renovação, parece-me
que o melhor é entreter o blogue com efemérides. De modo que não resisto a
comentar o acontecimento do dia, a cerimónia de assinatura do Tratado de Lisboa.
Estava tudo muito bonito, sim senhor, não há dúvida que houve cuidado. Excepto,
naturalmente, Dulce Pontes. Numa cerimónia deste teor não pode submeter-se
a assistência ao triste espectáculo de quem se apresenta em palco vestida e
penteada com esfregonas do minipreço, que se mexe e remexe como se fosse uma
contorcionista e, muito mais grave ainda, com uma incapacidade irremediável para
entender que a arte de cantar não tem nada a ver com gargarejos e piruetas vocais
até ao limite do suportável pelo ouvido humano.
Sinceramente, Portugal já não pode permitir-se passar por vergonhas destas. Há
por aí tantas cantoras com vozes bonitas e com a imprescindível noção estética do
que é uma presença em palco.
Teria sido tão simples. E estava tudo a correr tão bem...
[PF]

Etiquetas: ,

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

VERGONHA



No espaço de apenas três semanas, por diferentes razões, sairam nos jornais duas
notícias referentes à existência em Portugal de obras de dois grandes mestres
italianos, por coincidência, ambos venezianos e ambos pintores de génio:
Tintoretto e Tiepolo.
Primeiramente, foi noticiada a "descoberta" de A Adoração dos Magos, enorme
tela de Jacopo Tintoretto (1518-1594), pertença do convento de Singeverga. Um
facto feliz, mas que não deixa de ser sintomático da deficiente ou tardia investigação
histórica em torno do património artístico nacional que se encontra na posse da
Igreja.
Surge agora uma má notícia que deveria cobrir de vergonha as classes dirigentes
do país, potenciais mecenas incluídos: foi declarado pelos responsáveis do Ministério
da Cultura que o Estado não irá exercer o seu direito de preferência na compra da
pintura Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo, classificada
desde 1939 como obra de interesse público, e que desde essa data está impedida de
sair de Portugal. A obra vai a leilão em Lisboa no próximo dia 29, com uma base de
licitação de 1.250.000 euros. Nada disto constituiria escândalo se os nossos
principais museus não carecessem de autores e obras de arte de primeiro plano,
nomeadamente no que respeita à pintura italiana. A inexistência em Portugal de
políticas de aquisição, ou melhor dizendo, de políticas de investimento em bens
artísticos, que complementem lacunas e enriqueçam as colecções já existentes,
tem uma longa história de incúria e desprezo pela arte. Na triste (ultra)periferia
museológica em que o país permanece, não é tido em consideração o exemplo dos
principais museus internacionais que, apesar da dimensão e relevância das suas
colecções, continuam a desenvolver fortes políticas de aquisição.
Por cá, a desculpa é a mesma de sempre: que faltam meios ao Estado, que o dinheiro
não chega para tudo... Mas então, porque não se encurtam gastos sumptuários, a
começar pelas despesas dos Ministérios?
[R]

Pintura > Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), Itália
> Deposição de Cristo no Túmulo, c. 1765?. Colecção Particular
(leilão da casa Leiria & Nascimento, Lisboa)

[Adenda > 30. Nov.2007]
Júbilo, é a palavra certa. O Estado acabou por exercer o seu direito de opção na
compra da pintura de Tiepolo, como já se previa em vésperas do leilão.
Afinal, houve vergonha.
Não era coisa que se pudesse desprezar, uma parede
no MNAA
com três obras do grande mestre veneziano .
[R]

Etiquetas: , , , ,

Terça-feira, Novembro 13, 2007

RENOVAÇÃO

Pedimos mais alguns dias de paciência aos leitores que continuam a visitar-nos.
Em breve traremos novidades: a necessária renovação gráfica do Ultraperiférico
e a criação de 2 novos blogs associados. Até logo!
[R]

Domingo, Outubro 21, 2007

[citação 29]
COLOCA AS TUAS MÃOS



Coloca as tuas mãos sobre a pedra
coloca de frente para o mar os muros
que cercam os corpos
aceita a noite que os habita
e sorri. Verás que as aves
fazem ninhos sobre os muros
e sob as tuas mãos se desenha
a rara luz.

Felicita-se o blogue Certos Sons pelo primeiro ano de poemas acompanhados de
fragmentos de obras de arte. Memórias em zoom. A simplicidade, sempre difícil,
de cruzar enigmas poéticos.
É também um raro blogue de resistência à ilustração, utilizando imagens alheias sem
as aniquilar ou vampirizar, simultâneamente enfrentando o tabu da fragmentação.
[R]

Citação/Poema > Victor L., Portugal
> Coloca as tuas mãos, 2006 (
Poema 6, in Certos Sons)

Fotografia > José M. Rodrigues (n.1951), Portugal

> Solo, 2006
(fragmento de uma fotografia da série Solo)
[R]

Etiquetas: , , ,

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

POLÉMICA NO MUSEU



Em entrevista recente de Paulo Henriques ao Diário de Notícias, este jornal destaca
em título: "O Museu de Arte Antiga não tinha plano de exposições para
2008
". As surpreendentes declarações do novo director do MNAA sobre a gestão
da sua antecessora foram praticamente ignoradas nos media e na blogosfera, os
mesmos que há apenas dois meses tanto se indignavam pela não-recondução de
Dalila Rodrigues, acusando os responsáveis do Ministério da Cultura de saneamento
ideológico e desprezo pela competência.
Para além dos problemas da programação temporária, vale a pena reter outros
aspectos da entrevista em que Paulo Henriques, um mês após assumir o cargo, faz
questão de se demarcar da gestão de Dalila, propondo um novo estilo de direcção, nomeadamente reestruturando a exposição permanente. Adverte porém: "Não
esperem de
mim que comece a desmanchar só para mudar". A anunciada criação
de um conselho consultivo do MNAA e o propósito de aprofundar a investigação
sobre colecções e reservas, são ainda aspectos a destacar da entrevista.
Tal como se assinalou aqui, a mediatização do caso Dalila podia ter sido uma boa
oportunidade para debater e questionar as políticas museológicas do Estado e os
problemas do principal museu nacional. No entanto, esperemos que nem tudo se
tenha perdido, que desta vez os assuntos de política cultural deixem de ser tratados
com a habitual ligeireza, e que a politiquice e a exploração dos escândalos de ocasião
deixem de se sobrepor ao interesse público.
Algo não bate certo e a situação deve considerar-se grave, visto que, como é sabido,
os projectos expositivos de um grande museu são planeados a longo prazo, por vezes
a um ou mais anos de antecedência. Aquilo de que este caso parece ser sintomático,
é terem sido as manobras de bastidores a comandar os acontecimentos. Se Dalila
Rodrigues não deixou no MNAA um plano completo de exposições, estando apenas
prevista uma exposição de escultura contemporânea para 2008, como explicar as
declarações ao semanário Sol, uma semana antes de lhe ter sido comunicado o fim da
sua comissão de serviço: "Sobre o futuro, Dalila Rodrigues afirmou que tem
a programação de 2008 fechada, mas não tem a garantia de que ela se vá concretizar, já que a aprovação da dotação orçamental para o museu só acontecerá em Janeiro
".
Depois das declarações de Paulo Henriques, podemos conjecturar se Dalila teria um
plano secreto de programação. Ou se teria anulado contratos e projectos antes da sua
saída, para não favorecer o sucessor. Ou se nunca chegou a existir um verdadeiro
plano. Ou se, tendo a certeza antecipada de que não iria ser reconduzida, não quis
empenhar-se na programação. Porém, seria difícil prejudicar desse modo o MNAA,
dispondo este de uma equipa residente de conservadores e técnicos de museologia,
tal como seria difícil encenar um "estado de choque" após o seu afastamento da
instituição.
Afinal, a quem compete esclarecer a verdade? Porquê, o silêncio de Dalila?
[R]

Pintura > Jacopo da Pontormo (1494-1557), Itália
>
Alessandro de Medici (pormenor), c. 1535. Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga.
[R]

Etiquetas: , , , ,

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

A LIGHT IMPRESSION



25 anos depois da abertura da Ether... é sem dúvida um acontecimento. Porém, a
nova galeria na 16 Navegantes St. (Rua dos Navegantes, 16), Lisbon (Lisboa),
Portugal (Portugal), tem um "site" exclusivamente em língua inglesa. Mais parece
coisa pacóvia. "A light impression" (or is it a bad impression?), sobre fotografia
portuguesa.

A estratégia principal da galeria talvez seja a da necessária internacionalização ou da
circulação da fotografia portuguesa no mercado internacional. Está bem, trata-se de
uma iniciativa louvável de Luis Trindade, que devemos assinalar. No entanto, ainda
que o mercado globalizado nos imponha um império idiomático, não creio que a
exclusão da língua que se fala no país onde está sediada a galeria, seja um caminho
certo.
A Gallery P4 Photography inaugura na 4ª feira, 3 de Outubro, com a exposição
Atlas, que reúne fotografias de Carlos M. Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca.
Ficamos à espera do site bilingue. Good luck! (Felicidades!)
[R]

[Adenda > 4 Out. 2007]
A propósito da opção da P4Photography em "limitar toda a comunicação para o
exterior a uma língua" (a língua inglesa), salienta Carlos Miguel Fernandes que
a opção não foi bem recebida, e em certos casos o ataque até tem sido
um pouco rude
.
Lamento que uma opinião pessoal possa ter sido lida como ataque, uma vez que
apenas pretendi alertar para aquilo que deve ser considerado uma lacuna de
comunicação, e apenas isso, no contexto de um projecto que até poderá ser inovador.
Não se contesta nem o projecto, nem o seu responsável, nem os restantes
intervenientes.
Frequentemente desprezada em Portugal, a comunicação bilingue é uma questão
de princípio. Projectos privados dirigidos ao público e ao mercado não estão
isentos de responsabilidade cultural, tanto mais que a identidade do projecto P4
assenta na fotografia portuguesa, e esta não é dissociável dos restantes factores
identitários do país, particularmente da língua. A universalidade, ou neste caso
a internacionalização, não se faz abdicando da identidade.
[R]

Fotografia > Eduardo Portugal (1900-1958), Portugal
> Tecto pintado com as Armas de Portugal, Igreja da Misericórdia de Alenquer,
s/d (c. 1940),
(fotografia duplicada com inversão), Colecção Particular
[R]

ver também (em actualização):
> Madalena Lello, Atlas
> Alexandre Pomar, Atlas - dia 3
> Carlos Miguel Fernandes, Inglês ou Português?

Etiquetas: , , , , , , ,



[PF #11]
O colar da Ministra.
Há por aí alguém interessado em saber o que aconteceu com o colar de contas de
vidro da Ministra da Cultura? É fácil. Basta ir à pág. 5 do último Expresso. Está lá
tudo. Também lá está tudo sobre o nobre objectivo dos entrevistadores, a saber:
pôr a senhora suficientemente nervosa para que o texto pudesse ser escrito
ao melhor estilo tablóide. A não perder!
Se por qualquer motivo o leitor estiver também interessado em conhecer as políticas
culturais nas áreas do património, museus, música, teatro, cinema... Bom, então é
melhor procurar noutro sítio, não sei muito bem onde... mas que diabo, há-de haver
por aí algum jornal que considere útil informar o cidadão sobre mais qualquer
coisinha que não seja o sensacionalismo do futebol e das politiquices caseiras.
Há-de, não há-de?
[PF]

Etiquetas: ,

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

HUMILDADE


Vários autores se têm pronunciado sobre as chamadas três grandes humilhações que
a ciência infligiu à megalomania humana: a cosmológica, a biológica e a
psicológica
. São três bofetadas no egocentrismo da humanidade. A primeira,
quando Copérnico mostrou que a terra, longe de ser o centro do universo, não passa
de uma insignificante parcela do sistema cósmico. A segunda, quando Darwin,
Wallace e os seus predecessores, reduziram a nada as pretensões do homem a um
lugar de eleição na ordem da criação. A terceira, quando Freud demonstrou
(Introdução à Psicanálise) que o eu não é soberano na sua própria casa, onde
sobrevive à custa de uma luta permanente contra um id pulsional e um superego
castigador. Tema polémico e objecto de muitos estudos e contraposições posteriores,
esta afirmação de Freud merece reflexão e permanece actual.
Tal como refere Marie Balmary (La Divine Origine), o efeito Copérnico põe em causa
o lugar do homem, o efeito Darwin ofende a sua genealogia, o efeito Freud atinge a
sua alma. Mas creio que actualmente nos confrontamos com nova humilhação:
sobretudo a partir da II Guerra Mundial, a manipulação humana dos ecossistemas,
o uso e abuso dos combustíveis fósseis, a ausência de critérios bioclimáticos
adequados, acarretaram desequilíbrios que agora se viraram contra nós.
As mudanças climáticas provocadas pelo aumento das emissões dos gases com efeito
atmosférico de estufa, são disso exemplo. Um dos efeitos do aquecimento global neste
século está bem patente no acréscimo da intensidade e frequência das vagas de calor.
Digamos que a natureza mostra que não é propriedade do homem mas sua
proprietária, que não é sua súbdita mas sua soberana, ao implicar a destruição do
homem na mesma medida em que por ele vai sendo destruida. Às três humilhações
do homem pela ciência, sucede assim uma outra, bem mais devastadora, infligida
pela própria natureza que ao ser humilhada exige humildade.
E a humildade é, para a arrogância humana, a suprema humilhação.
[P]

Pintura > Quentin Metsys (1466-1530), Bélgica (Flandres)
> A Duquesa Feia, 1525-30, Col. National Gallery, Londres
[R]

[Adenda > 29 Set. 2007]
O belo e o horrível estão desde há muito presentes na história da arte. Vêmo-los
coexistirem em cada época, nas várias expressões artísticas,
no mesmo autor ou até
numa mesma obra. Partes do mesmo todo, que nos provocam atracção ou repulsa,
interpelando o sentido da arte e da própria condição humana. Faces da mesma
moeda, os contrários potenciam-se, podem detonar-se mutuamente.
Esta Duquesa Feia do grande Quentin Metsys, um dos mestres flamengos que
mais terá influenciado a pintura portuguesa do século XVI, é certamente um retrato
ficcionado de uma dama aristocrata, uma representação caricatural da fealdade
que tantas vezes se esconde atrás dos mais nobres rostos. Ou talvez,
considerando
o contexto religioso da obra de Metsys e de alguns dos seus contemporâneos, como
Hieronymus Bosch,
se trate afinal de uma pintura que cruza metaforicamente o
profano e o sagrado.
[R]

Etiquetas:

Segunda-feira, Setembro 17, 2007



[PF #10] Buracos.

Venho por esta via solicitar ao Sr. Presidente da Câmara de Lisboa, o favor de colocar
na agenda para a capital, uma alínea que contemple a reconstrução integral da (quase)
totalidade dos pisos das ruas da urbe. É uma dor de cabeça para qualquer um, sem
dúvida, mas a responsabilidade, lamentamos, passou para as suas mãos. Nestas
circunstâncias, veja lá se canaliza as verbas indispensáveis e se começa por uma
ponta. Uma ponta qualquer, não perca tempo a estabelecer prioridades, está tudo
uma lástima. Vai ver, Sr. Presidente que, se conseguir reconstruir uma média de dez
a vinte ruas por semana, bastarão dois (quando muito três) mandatos para dar às
ruas de Lisboa um aspecto banal, tão banal como o de qualquer outra cidade europeia
a partir de Ciudad Rodrigo ou Badajoz. Porque nós queremos mesmo deixar de
pertencer ao terceiro mundo. Verdade?
[PF]

Etiquetas: ,

Terça-feira, Setembro 11, 2007

11 DE SETEMBRO



E se duas bombas se encontrassem em pleno voo a caminho do alvo? Daquele alvo tão
legítimo. Como comunicavam? Nem todos falam inglês. Nem mesmo inglês dos EUA.

Existem mais de duzentos países no mundo. Alguém disse que o mundo não mudou,
apenas mudou a maneira como olhamos para ele.

Em 11 de Setembro de 2001 o mundo ficou mais fraco, mais igual a si próprio. É uma
mudança?

[Espiral]

Pintura > Francisco de Zurbarán (1598-1664), Espanha
>
San Sérapin, 1629, col. Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, EUA
[R]

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

[citação 28]
SER-UNS-COM-OS-OUTROS




Ser-uns-com-os-outros no mundo, tê-lo enquanto uns-com-
-os-outros, tem uma determinação ontológica especial.
A modalidade fundamental do ser-aí do mundo, que este tem
aqui em-comum-com-os-outros, é o
falar. Falar, no seu sentido
pleno, é: falar
com outrem expressando-se acerca de alguma
coisa. O ser-no-mundo do homem sucede predominantemente
no falar. Aristóteles já o sabia.

Citação > Martin Heidegger (1889-1976), Alemanha
> in "O conceito de Tempo" (conferência de Marburgo, 1924), ed. Fim de Século,
Lisboa, 2003.
[P]

Pintura > Hans Arp (1887-1966), Alemanha/França
> Sem Título (Abstracção), 1926, Museu Colecção Berardo.
[R]

Etiquetas: , ,