Quarta-feira, Junho 10, 2009

Segunda-feira, Junho 01, 2009

[citação 35]
E AS CRIANÇAS NA MACIEIRA


E as crianças na macieira
Não conhecidas, porque não procuradas
Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
Entre duas ondas do mar.
Depressa, aqui, agora, sempre -
Um estado de completa simplicidade
(Que custa não menos que tudo)
E tudo acabará bem e
Todas as coisas acabarão bem
Quando as línguas de fogo estiverem abraçadas
No coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa forem um só.

Citação/Poesia > T. S. Eliot (1888-1965), EUA/Inglaterra
> in Quatro Quartetos, ed. Ática, Lisboa, 1963 (trad. Maria Amélia Neto)

Pintura > Joan Miró (1893-1983), Catalunha/Espanha
> Azur 3, 1961
[P]

Quinta-feira, Maio 28, 2009

[citação 34]
AMO DEVAGAR OS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos
de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo, e eles voltam-se profundamente

dentro do fogo.

-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

Poesia > Herberto Helder (n.1930)
> in Poesia Toda, Assírio & Alvim, 1996

Pintura > Piet Mondrian (1872-1944), Holanda/EUA
> Lozenge Composition with Yellow, Black, Blue, Red and Grey, 1921,
col. The Art Institute of Chicago, EUA
[P]

Sábado, Abril 25, 2009

ESTA MADRUGADA, EM LISBOA



1974
Comemorações da Revolução dos Cravos . Ultraperiférico
2009

Na montra de uma loja de flores, à saída do Bairro Alto, há um cravo gigante feito de um molho de cravos vermelhos, e há uma jarra com um regador de cravos vermelhos. Os cravos não saem do cano de uma arma, mas saem do cano de um regador. A loja Flower Power merece destaque pela sabedoria simbólica do trabalho de Carlos Filipe. Também lá dentro, na semi obscuridade, há molhos de cravos vermelhos e imagens da Revolução, vídeo-projectadas na parede de fundo.

Enquanto isto, o Presidente da República apresentar-se-à certamente nas cerimónias comemorativas do 25 de Abril sem cravo na lapela, isto é, rejeitando uma vez mais o ícone de uma época e de um país. Cavaco não compreendeu ainda que o cravo vermelho é bem mais do que um símbolo passageiro e que este símbolo lhe sobreviverá. Nem compreendeu que na sua ilustre lapela preside afinal uma ausência, de sentido histórico e simbólico. Satisfeitos, de mentes quadradas, alguns senhores à esquerda como à direita, uns porque não reconhecem Cavaco como legítimo portador do ícone que consideram apenas seu, outros reconhecidos por Cavaco não manchar de "encarnado" a sua presidência. Uns e outros desprezando a universalidade, poética e estética, da flor que deu nome a uma revolução.
E já lá vão 35 anos.
[R]

Sexta-feira, Abril 24, 2009

CRAVOS ANTIGOS (e modernos)

1974
Comemorações da Revolução dos Cravos . Ultraperiférico
2009

Abril de novo, desta vez com cravos de Amadeo.

Pintura > Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), Portugal
> Menina dos Cravos, 1913, Museu do Caramulo
[R]

Segunda-feira, Abril 20, 2009

PISOS

Os pisos das ruas de Lisboa encontram-se num estado cada vez mais deplorável. Circular no centro da cidade é quase impossível sem um todo-o-terreno. Para os restantes, é uma prova constante de perícia dos condutores e um perigoso exercício de acrobacia a que os carros vão resistindo com mais ou menos desgaste.
Não se conhece nenhum plano de intervenção e recuperação por parte dos sucessivos governos autárquicos. Agora que as eleições se aproximam, vamos lá ver se os candidatos estão "preocupados" com o assunto.
[P]

Fotografia > Gérard Castello-Lopes (n.1925), Portugal
> Lisboa, 1956.

Segunda-feira, Março 02, 2009

[citação 33]
EU NÃO POSSO PINTAR UM ANJO



Eu não posso pintar um anjo porque nunca vi nenhum.

Citação e Pintura >
Gustave Courbet (1819-1877), França
> G. Courbet citado por H. W. Janson, a propósito do Realismo na pintura do séc. XIX,
in História da Arte
, ed FCG, Lisboa, 1984
> L'origine du monde (A origem do mundo), 1866, Col. Musée d'Orsay.

[clique sobre a imagem para ampliar]

[R]

[Adenda > 3 Março 2009]
Raramente os assuntos de arte têm honras de primeira página nos orgãos de informação portugueses, excepto, claro, quando associados a um qualquer escândalo. É o caso recente
, que mereceu notícias de destaque, apenas porque esta pintura do grande Courbet reproduzida na capa de um livro foi vista como mera pornografia. Em Braga, burgo de forte tradição católica, cidadãos exemplares apresentaram queixa à polícia e esta, zelosa dos bons costumes, proibiu a sua exibição pública numa feira do livro. Abuso de autoridade policial, censura ou ignorância, pouco importa. No entanto, talvez valha a pena referir que "A origem do mundo", feita por Courbet quando a maioria dos artistas praticava um género idealizado de nú artístico, segundo cânones da mitologia clássica ou da iconografia cristã, é uma obra-prima do Realismo oitocentista, que afinal ainda hoje é capaz de incomodar os mais puritanos e de lançar a discussão sobre as fronteiras entre criação artística e pornografia, entre obra de arte e objecto de desejo. Ou ainda capaz de nos interpelar sobre as razões do pudor e do preconceito face à excelência de uma representação, crua e minuciosa (leia-se intensamente realista), daquela parte do corpo feminino de que todos nascemos.
[R]

Terça-feira, Fevereiro 24, 2009

O MESTRE



Lagoa Henriques (1923-2009), professor de desenho da Escola de Belas Artes de Lisboa, marcou sucessivas gerações de artistas plásticos. A paixão com que se exprimia e a capacidade para alargar o sentido do acto de desenhar, tornaram-no um mestre único. Em plena aula, gostava de citar os seus mestres preferidos: Almada
("a poesia é um acto vitalício") e Pessoa ("sê todo em cada coisa, põe quanto és no mínimo que fazes"). Insistia na expressividade do traço, nos eixos que estruturam a figura, no imprevisto que se solta sobre a página, na formação de um olhar exigente. Por vezes interrompia a sua aula de modelo e chamava à janela os jovens aspirantes a artistas para que olhassem o "lá fora", para que tomassem sempre como exemplo o espectáculo deslumbrante da cidade e da natureza. Está tudo aí, "já está tudo feito".
E disse: "O grande problema do nosso tempo é conciliar a técnica com a ética, a estética e a poética".

Desenho > José de Almada Negreiros (1893-1970), Portugal
> Pegasus, s/d
[R]

Domingo, Fevereiro 08, 2009

UM "NOVO" MUSEU DE ARTE ANTIGA

Tarde cinzenta e chuvosa de domingo, última oportunidade para ver Rembrandt, no Museu Nacional de Arte Antiga. Enquanto almoçava no agradável bar do museu, estava longe de imaginar o que me esperava para além da bela pequena exposição temporária do mestre flamengo: o prazer de constatar a recente reestruturação das salas de exposição permanente das colecções de Pintura Europeia e de Artes Decorativas Europeias.
Surpreendente: novo percurso museológico, novo conceito museográfico, reorganização das obras por núcleos cronológicos e geográficos, novas leituras da colecção, novas formas de diálogo com o visitante, despojamento e limpeza visual
das vinte e três salas. A intervenção arquitectónica, a cargo da arq.ª Célia Anica,
não foi radical nesta zona do museu localizada no Palácio Alvor, mantendo-se várias
das estruturas de 1994 desenhadas pelo arq.º João Almeida. Já do ponto de vista do conceito museográfico dir-se-ia que estamos perante um novo museu, onde cada
peça encontrou o lugar próprio.

Depois das polémicas em torno do afastamento de Dalila Rodrigues da direcção do MNAA, em 2007 - que assinalámo aqui e aqui -, esperava-se de Paulo Henriques um projecto audacioso e simultâneamente equilibrado. Pouco mais de um ano após a tomada de posse deste discreto director do museu, registe-se a sua capacidade de gestão (em tempos de crise económica) e a qualidade científica e estética das suas propostas.
Aguardemos agora a complexa renovação do edifício anexo ao Palácio Alvor, que possa devolver dignidade aos principais tesouros artísticos da arte portuguesa, nomeadamente retirando da sua desastrada localização actual os Painéis de Nuno Gonçalves. E já agora, porque não, ambicionemos novas aquisições para enriquecer os núcleos artísticos dedicados à influência da cultura portuguesa no mundo. É preciso não esquecer que o núcleo de arte afro-portuguesa está actualmente representado por apenas quatro peças, o que fica muito aquém das responsabilidades históricas do principal museu nacional.

Escultura/Cerâmica > Oficina Della Robia, Florença, Itália
> Medalhão heráldico com as armas de Portugal, séc. XVI (in
MatrizPix)
[R]

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

ACTUALIZAÇÃO



Em tempos de crise (crisis? what crisis?), recuperamos esta imagem publicada num post antigo sobre a FIB. Assim se prova que nem tudo do que já foi dito neste blog está desactualizado.
[R]

Fotografia > Janie Regnerus (n. 1971)
> Moss, 2001 (Col. Galerie Anne Villepoix)

Domingo, Janeiro 25, 2009



[PF #14.]
Casamento e homofobia.
"Eu sou casado e tenho 3 crianças e sou muito feliz. Ou sou solteiro, tenho 1 filho e feliz sou. Ou sou viúvo, com filhos e netos, ou nem por isso, 2 mulheres, 4 concubinas, 3 ajeitosadas. Tenho uma família, ou duas, ou aquelas que me saíram num bolo-rei. Que diabo me interessa, ou perturba, ou incomoda, ou contribui para a minha (in)felicidade, ter um casal de lésbicas ou gays casadinhos da silva a viver no 2º esquerdo, com um puto ou quantos forem?"
In "Os sete blefes mortais da homofobia", por Paulo Pinto. Para ler aqui, de uma ponta à outra.

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Sábado, Janeiro 17, 2009

ANO 3



Não, o Ultraperiférico não foi atingido pela crise global, embora no último ano tenhamos lançado apenas 18 posts. É pouco para comemorar, é certo, mas aqui estamos assinalando que o blog ainda há-de recuperar fôlego, um dia destes.

Pintura > Andrea Mantegna (1431-1506), Itália
> Oculo, Camera degli Sposi. Fresco. 1467?-74. Palazzo Ducale, Mantova, Italia.
[R]

Domingo, Janeiro 04, 2009

CAVACO PAROQUIAL



Cavaco não desperdiça uma única oportunidade para promover o mito de si próprio. Na chamada mensagem de ano novo, não poderia ter sido mais certeiro no uso do seu tão característico tom paroquial, para exibir empenho e preocupação pelos temas a que os cidadãos são infalivelmente vulneráveis. O seu propósito pessoal consistiu em manter sobre a sua pessoa o habitual embevecimento dos media, que se apressaram a dissecar-lhe o discurso na ânsia de descobrir magnificência onde apenas existem trivialidades. Entretanto Cavaco persiste na sua caminhada para a consagração final: ganhar as próximas eleições com 90% de votos. É o mesmo que dizer que grande parte dos portugueses de esquerda cairão como patinhos e votarão Cavaco. Os tais portugueses que sempre lhe provocaram e provocarão intensa repugnância. E que Viva Portugal! Que Viva!!
[P]

Pintura > Francis Smith (1881-1961), Portugal
> Procissão

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008

Ó MÃE



Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda - nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
- Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

- Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Citação > Herberto Helder (n. 1930), Portugal
> in Poesia Toda, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 1998

Fotografia > José M. Rodrigues (n. 1951), Portugal
> s/título, c.1980
[P]

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

PARQUE DOS MILHÕES



Por razões profissionais, sou semanalmente constrangido à penosa travessia da parafernália de gaiolas de betão em que o Parque Expo se tornou e a que o prestigiado arquitecto Manuel Graça Dias já se referiu como sendo um dos lugares mais feios do mundo. Concordamos! A Expo 98, depois de nos dar a ver a extraordinária beleza daquela margem do Tejo, rapidamente abriu caminho para a descoberta de um filão que parece não ter fim. Na altura, foi dito até à náusea, que o aproveitamento daquele espaço para construção "servia os interesses nacionais". Há muito que sabemos o que significa "interesses nacionais". É notável a imaginação e rapidez com que ali se vão descobrindo novas nesgas de terreno onde estaleiros e torres de cimento medram como cogumelos. Escritórios, serviços, habitação. E condomínios privados, pois claro. Um deles ostenta o nome em toda a extensão da fachada: metrocity. Atrocity, diria eu. Quando os semáforos me obrigam a parar, dou comigo a pensar se não existirão por aí arquitectos do sexo feminino. E câmaras municipais e empresas de construção civil do sexo feminino. E dou comigo a pensar se todo aquele mostruário fálico seria o que é, se tivesse sido desenhado por arquitectas.
[P]

Sábado, Outubro 11, 2008

ZIF



Quem passa pelas estradas da chamada Beira Interior, depara-se com uma
paisagem verde de mato e pinheiros a crescer pelos montes até onde a vista
alcança. Trata-se exactamente do mesmo território que a onda de incêndios
de 2003 transformou numa vasta superfície de terra calcinada a perder de
vista. Foi um verão marcado por incontáveis debates televisivos e reportagens
de tragédias captadas e comentadas "em cima do acontecimento" e no próprio
"cenário de operações".
O então primeiro-ministro Durão Barroso deu o seu melhor frente às câmaras,
com solenes declarações em que teve oportunidade de mostrar "preocupação
e empenhamento" e "confiança total nas instituições".
Sucederam-se múltiplos estudos sobre reordenamento florestal e defendeu-se
convictamente para aquela zona que é, segundo consta, a "maior mancha de
pinhal da Europa", a substituição de pinheiros por carvalhos, sobreiros,
castanheiros, etc., árvores menos dadas à propagação do fogo.
Mas o silêncio e a indiferença não tardaram a instalar-se, porque em questão
de audiências a floresta não é tema, só é tema a catástrofe.
No entanto, em Agosto de 2005 foi promulgada a legislação sobre as ZIF
(Zonas de Intervenção Florestal), sigla interessante para ser, como parece ter
sido, rapidamente absorvida pela burocratização e investimentos em árvores
de crescimento rápido e portanto mais rentável. O país continua ao abandono,
à mercê de cheias no inverno e fogos no verão, fogos que na verdade ninguém
quer saber se são postos ou não postos, pouco importa, nada importa a não ser
que dê lucro. O dinheiro permanece o verdadeiro afrodisíaco.
Quanto à bela paisagem natural das Beiras, tem os dias contados: vai arder
assim que os pequenos pinheiros atinjam proporções adequadas. E nessa altura
não faltarão novos debates e reportagens e declarações públicas dos altos
representantes da Nação.
É nisto que Portugal é imbatível. É isto que dá a Portugal um lugar de destaque
na União Europeia.
[P]

Pintura > Josef Albers (1888-1976), Alemanha/EUA
> Homage to the Square: Soft Spoken, 1969, Metropolitan Museum, Nova Iorque
[R]

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

[citação 31]
NA MINHA OPINIÃO



Na minha opinião, a arte é a única força evolutiva.
Quer dizer,
que só partindo da criatividade humana
se pode transformar
o estado de coisas existente.

Citação
> Joseph Beuys (1921-1986), Alemanha
Objecto
> Joseph Beuys > Capri Batterie, 1985.
[R]

Quarta-feira, Julho 30, 2008

PAISAGISMO APOCALÍPTICO



Cemitério semi-abandonado com petrolífera ao fundo: quem suportaria ter em
casa, ao lado de outras fotografias ou pinturas, imagens como esta, do americano
Richard Misrach? Imagens terríveis, belas e terríveis, apenas suportáveis nas
paredes de museus que actualizam as suas colecções de autores contemporâneos,
ou nas páginas de livros e revistas, ou em sítios atentos aos problemas do planeta
e à sua iconografia, como é o
blog de Madalena Lello.
A fotografia de paisagens aterradoras, praticada hoje por tantos fotógrafos, uns
registando e denunciando a intolerável agressão do homem sobre a natureza,
outros estetizando o horror urbano da nosso era, talvez não chegue a prevenir
quanto às possibilidades de um desastre generalizado.
De facto, através da proliferação de imagens fotográficas, parece ter-se abatido
sobre o nosso quotidiano uma espécie de manto ficcional, fantasmagórico e
obnubilante. Será que ainda nos restam temores do apocalipse, fora ou dentro
do imaginário cristão que os originou? Ainda existe salvação?

Fotografia > Richard Misrach (n.1949), EUA
>
Holy Rosary Cemetery and Union Carbide Complex, Taft, Louisiana, 1998
Col. The Art Institut of Chicago.

[R]

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Sexta-feira, Julho 25, 2008

GALIZA



25 de Julho, Dia da Pátria Galega:

Manuel Rivas, poeta e ensaísta, refere-se-lhe assim:

"Na alta Idade Média, a Galiza é conhecida como Jacobusland, o País de Santiago.
A boa estrela de Compostela, que começou quando no séc. IX uma assembleia de
clérigos e nobres, presidida pelo rei Afonso II, ratificou a invenção do sepulcro
apostólico, brilha agora por três motivos simbólicos, não conciliáveis para todos:
cidade santa da Cristandade, santuário do Padroeiro de Espanha e sanctasanctórum
do nacionalismo galego, com o seu centro de espiritualidade laica no Panteão dos
Galegos Ilustres, onde jazem Rosalía de Castro e Castelao. Estas três vontades, ou
outras paralelas como a de assistir à feira de gado que tanto agradava a Valle-Inclán
ou os fogos de pirotecnia, convocam milhares de pessoas a Santiago no dia
25 de Julho de cada ano. Louros peregrinos que chegam do centro da Europa de
avião, mas também a pé, a cavalo ou em bicicleta pelo velho Caminho; políticos de
fraque ou militares com o peito repleto de condecorações, que se dirigem à catedral
para assistir à Oferenda ao Apóstolo; manifestantes nacionalistas com uma colorida
simbologia entre céltica e marxista que celebram o Día da patria galega;
e camponeses e pecuários que alimentam o substracto agrário de qualquer grande
festa na Galiza. Com a indiferença das camadas urbanas estandardizadas que nesse
dia peregrinam até às praias, Compostela oferece no 25 de Julho um espectáculo
único, como se o complicado puzzle social galego se recompusesse num mosaico de
costumes, num grande estúdio cinematográfico. Já me encontrei com veneráveis
galeguistas agnósticos que comparecem todos os anos em Compostela com uma
constância religiosa, e a quem apenas a prisão privou desse acto de fé. Mesmo nos
piores anos do franquismo se celebrava nas catacumbas esse Dia com uma cobertura
religiosa, a chamada Misa de Rosalía."

Texto > Manuel Rivas (n.1957), Galiza
> in
Galicia, el bonsái atlántico, 1994, ed. El País, S.A./Aguilar
> traduzido a partir do texto em castelhano.

Pintura > Alfonso Castelao (1886-1950), Galiza
> O neno das pinhas, c.1926, aguarela. Museu de Pontevedra
[P]

Segunda-feira, Julho 07, 2008

JOSÉ M. RODRIGUES, EM ÉVORA



José M. Rodrigues - Antologia Experimental, no Palácio da Inquisição, em Évora,
ao longo deste Verão. Lê-se num texto parietal da exposição:

"Antologia Experimental" (1972-2008), reúne segmentos do percurso
fotográfico de José M. Rodrigues explorando relações múltiplas entre
fotografias das últimas duas décadas e o trabalho experimentalista realizado
sobretudo na década de 1980, período em que o artista, então a residir na
Holanda, manteve estreitas ligações com os movimentos de vanguarda do
centro da Europa.

Fotógrafo dos pés à cabeça (ou da cabeça aos pés), José M. Rodrigues diz
que
não saberia viver sem fotografar. Uma confissão apaixonada de quem
fotografa
de corpo inteiro e para quem o experimentalismo foi uma zona de
pura respiração,
que cruza até hoje com as práticas fotográficas clássicas.
Ao contrário dos escultores ou pintores que afirmam utilizar a fotografia para
dizer aquilo que não poderiam dizer de outro modo, José M. Rodrigues tem
utilizado outras linguagens - instalação, objectos tridimensionais, vídeo,
performance - para explorar e aprofundar aquilo que pretende dizer como
fotógrafo. Mais do que um trabalho implicando a diluição de fronteiras entre
a fotografia e as outras disciplinas, trata-se fundamentalmente de uma fusão
de linguagens ao serviço da fotografia. Este aspecto talvez deva considerar-se
a principal originalidade do seu percurso experimental, por comportar uma
misteriosa unidade contida na diversidade, a par de factores de irreverência
que o artista subordina ao sentido da ordem. José M. Rodrigues toma como
suas as palavras do pintor George Braque:
"Amo a regra que corrige a emoção,
amo a emoção que corrige a regra".

Foto-objecto > José M. Rodrigues (n. 1951), Portugal
> S/título, Amsterdam, 1985/2008. Sequência de diapositivos em caixa de luz,
no Palácio da Inquisição, Évora.
[R]

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Domingo, Junho 01, 2008

[citação 30]
SE ELA UM DIA ADORMECER COM CEREJAS



Se ela um dia adormecer com cerejas junto ao pequeno
respirar, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros - e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando - escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome (...)


Citação/Poema > Herberto Helder (n.1930), Portugal

> As Musas Cegas, VII


Fotografia > Julia Margaret Cameron (1815-1879), Reino Unido
> Rachel Gurney, I Wait, 1872, col. The J. Paul Getty Museum, Los Angeles
[P]

Terça-feira, Maio 06, 2008

JOSÉ M. RODRIGUES, EM LISBOA



Abriu com Elementos, de José M. Rodrigues, a nova galeria Pente 10.
A exposição apresenta trabalhos recentes a cores e preto e branco, alguns deles
em grande formato, mas também objectos e uma instalação. O conjunto
diversificado de obras, dialogando entre si, parece resumir as preocupações
do autor ao longo do seu percurso e apontar simultâneamente alguns caminhos
novos. A não perder.

Dedicada a projectos artísticos predominantemente contemporâneos na área
da fotografia, a Pente 10, dirigida por Catarina Ferrer, está situada no centro
de Lisboa, na Trav. da Fábrica dos Pentes, nº 10, junto ao mágico Jardim das
Amoreiras, bem próximo do Museu Arpad/Vieira da Silva. O espaço interior
da galeria, com projecto do arquitecto Francisco Aires Mateus, possui dois pisos
com salas de exposição, um dos quais integra um compartimento "caixa negra",
destinado a instalações de arte e projectos especiais.

Fotografia > José M. Rodrigues (n. 1951)
> Valência, 2007
[R]

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Sexta-feira, Abril 25, 2008

REVOLUÇÃO, DE NOVO


1974
Comemorações da Revolução dos Cravos . Ultraperiférico
2008

Impossível não comemorar a Revolução dos Cravos, 34 anos depois. Basta lembrar
que entre 1926 e 1974 o país viveu isolado do mundo, e que durante esse quase
meio século de grandes transformações culturais e sociais, Portugal se distanciou
tragicamente da Europa, como se dela não fizesse parte.
Um balanço dos anos posteriores à Revolução, leva-nos a constatar que, à excepção
das mudanças ditas estruturais resultantes da vivência democrática, persistem na
sociedade portuguesa mentalidades, hábitos e idiossincrasias que contrariam uma
verdadeira condição europeia.
O tempo perdido não se recupera, é certo, mas diagnosticar as fragilidades talvez
contribua para combater a inércia e a mediocridade.
E se outros motivos não houvesse, onde é que já se viu deixar de comemorar uma
revolução feita com flores?

Colagem > Ana Hatherly (n.1929), Portugal
> Da séria As ruas da cidade, 1977, Col. CAM/FCG, Lisboa
[R]

[Adenda]
Impressionante a evocação dos portugueses mortos pela ditadura, no Branco Sujo.
Mas a pergunta é: e os portugueses que ao longo daqueles anos morreram por dentro?

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Quarta-feira, Abril 09, 2008

CONTACTO



Não sei se deva chamar-se cedência ortográfica ao acordo de que tanto se fala.
Não entendo bem para que serve. É coisa cultural, diz-se. É só para eliminar
da língua o supérfluo, visto que o acordo não inclui alterações de sintaxe nem
de pronúncia, apenas de ortografia. Sim, mas... se em lugar de acção, direcção,
protecção, adopção, passamos a escrever ação, direção, proteção, adoção,
a tendência não será para ler a-ção, dir-ção, pru-teção, adu-ção? Falta saber
se corrector passa a corretor, nesse caso, como o corretor da Bolsa tem o direito
de corrigir, lemos que o corretor é corretor.
E como as palavras graves ou paroxítonas deixam de levar acento, passa a
escrever-se, por exemplo, boia em vez de bóia, e como a bóia até boia, lemos
que a boia boia.
E como os cidadãos não têm voto nesta matéria, resta-nos ceder com tacto
ao acordo, ou então aceder com tato à cedência. Contato com tato. Será?
[P]

Fotografia > Hiroshi Sugimoto (n.1948), Japão
> North Atlantic Sea, 1996
[R]

Segunda-feira, Março 17, 2008

HOJE



No dia em que os professores de todo o país reunem para avaliar os seus alunos,
porque a avaliação é para os professores um dos actos essenciais do sistema de
ensino, e porque se considera também que a avaliação do próprio sistema, escolas
e professores, é igualmente indispensável, transcreve-se o seguinte documento
do Departamento de Línguas da Escola Secundária D. Maria II, Braga, divulgado
no blogue Movimento Escola Pública:

Atendendo a que, sem fundamento válido, se fracturou a carreira docente em duas: professores titulares e não titulares;

Atendendo a que essa fractura se operou com base num processo arbitrário, gerando injustiças inqualificáveis;

Atendendo a que os parâmetros desse concurso se circunscreveram, aleatória e arbitrariamente, aos últimos sete anos, deitando insanemente para o caixote do lixo carreiras e dedicações de vidas inteiras entregues à profissão;

Atendendo a que, por via de tão injusto concurso, não se pode admitir, sem ofensa
para todos, que seguiram em frente só os melhores, e que ficaram
para trás os que
eram piores;


Atendendo a que esse concurso terá repercussões na aplicação do assim chamado
modelo de avaliação, já que, em princípio, quem por essa via
acedeu a titular será
passível de ser nomeado coordenador e, logo,
avaliador;

Atendendo a que, por essa via, pode muito bem acontecer que o avaliador seja menos qualificado que o avaliado;

Atendendo a que o modelo de avaliação é tecnicamente medíocre;

Atendendo a que o modelo de avaliação é leviano nos prazos que impõe;

Atendendo a que o modelo de avaliação contém critérios subjectivos;

Atendendo a que há divergências jurídicas sérias relativas à legitimidade deste modelo;

Atendendo a que o Conselho Executivo e os Coordenadores de Departamento foram democraticamente eleitos com base nas funções então definidas para esses órgãos;

Atendendo a que este processo, a continuar, terá que ser desenvolvido pelos anunciados futuros Conselhos de Escola, Director escolhido por esse Conselho,e pelos Coordenadores nomeados;

Nós, professores do Departamento de Línguas, da Escola Secundária D. Maria II, não reconhecemos legitimidade democrática a nenhum dos órgãos da escola para darem continuidade a um processo que extravasa as funções para as quais foram eleitos;

Mais consideram que:

Por uma questão de dignidade e de solidariedade profissional, devem, esses órgãos, suspender, de imediato, toda e qualquer iniciativa relacionada com a avaliação;

Caso desejem e insistam na aplicação de tão arbitrário modelo, devem assumir a quebra
do vínculo democrático e de confiança entre eles próprios e quem os
elegeu, tirando
daí as consequências moralmente exigidas.

[R]

Fotografia > Paulo Catrica (n.1965), Portugal
> in Liceus, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2005 (via Sais de Prata e Pixels).
[R]

Domingo, Março 16, 2008



[PF #13] Perfurações.

No Insónia, Henrique Fialho protesta contra a proposta de lei que permitirá
à ASAE passar a fiscalizar, não apenas os sítios públicos, mas também os sítios
púbicos
supostamente privados. Ora, o que a ASAE pretende, é apenas manter
os bons costumes, a moral. Até porque em tempos ainda houve no país umas
suspeitazitas de corrupção, de pedofilia, de crimes de colarinho branco, de jogos
de interesses autarquias/construção civil, de futebol/autarquias, ou diversos
outros vice-versas. Mas não. Está categoricamente provado que Portugal é um
país de cara lavada, repleto de gente de bem, sem o mais leve resquício de dívidas
ao fisco, gente que vai à missa ao domingo, que vive pacatamente em seus pacatos
condomínios fechados. Está tudo nos conformes, incluindo a situação económica
criada por Cavaco no tempo das vacas gordas, temos sol, pobrezinhos já não há,
a classe média floresce como a Primavera em todo o seu esplendor. E vem agora
esta malta nova a querer abalar a ordem vigente ostentando brincos e piercings
e tal. Ainda por cima devem ser todos uns fumadores do caraças. Dá mau aspecto.
Portanto, deixem lá a ASAE continuar a zelar pelo progresso do país, providenciando
a saúde dos cidadãos. É tudo feito a pensar em nós, não é?

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Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008

JIM DINE TODOS OS DIAS








> clique em cada coração para ampliar <
E porque "un corazón solitario no es un corazón" (Antonio Machado)
faça a sua escolha.


Pinturas > Jim Dine (n.1935), EUA
v. Jim Dine
[R]

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

ENTRUDO, O ADEUS À CARNE



O carnaval tradicional desapareceu. Sobram resíduos folclóricos em pequenas
localidades, mais os carnavais urbanos progressivamente desenraizados, mais os
carnavais das máquinas de indústria turística. Vieram os corsos, crescentemente
abrasileirados, imitação barata das grandiosas fantasias tropicais, mimetismo saloio
de pobrezinhos com meninas seminuas num frio de rachar, e estrelas brasileiras de
telenovela. Escolas de samba do Minho ao Algarve, e todo o mundo sambando
avenidas fora, sambando aos ritmos baianos e cariocas nas cidades pequenas de
Portugal. E nós que levámos o entrudo para o Brasil, importa-mo-lo agora de lá.
A identidade carnavalesca deu à sola, a criatividade do povo luso extinguiu-se ou
domesticou-se. Uns porque são avessos a folias, outros porque a tradição já não é
o que era, outros porque já bastam as máscaras do dia a dia. Todos amargurados
e amolecidos pela tal crise de que tanto se fala, sem vontade de rir.
E findo o entrudo só nos resta esperar pelo próximo 31 de Outubro, a ver se é
desta que o (lusitaníssimo!!!) Halloween passa a feriado nacional, colado ao feriado
do Dia-de-Todos-os-Santos.

Objecto etnográfico > Anónimo, Portugal
> Máscara transmontana, séc. XX., Bragança, Museu do Abade de Baçal.
[R]

Domingo, Janeiro 27, 2008

O ALVO
(ou a ética e a táctica na política)




A atenção que este blogue dedica aos chamados assuntos da ordem do dia é, por
convicção, tão reduzida quanto possível. Estamos a falar daqueles assuntos que,
por determinação dos nossos media, adquirem o estatuto de actualidade.
Mas quando, de repente, se torna indispensável noticiar e debater as reais
possibilidades de Portugal ser alvo de acções terroristas por parte do
fundamentalismo islâmico, não podemos deixar de questionar por que motivo
é este o momento de quebrar o tabu. Claro, o facto de Espanha ter dado o alerta,
parece ter-nos acordado. De súbito, deixámos de ser incólumes.

No entanto, não é de agora que Portugal passou a ser um alvo potencial. Desde
o 11 de Setembro que esse risco se tornou claro. Não se deu por isso, à conta da
velha ideia de que somos insignificantes no contexto europeu, sem dimensão nem
visibilidade internacionais. Subestima-se sistematicamente o prestígio do país,
ignora-se que para o mundo árabe o nosso estatuto histórico ainda não foi
esquecido, do mesmo modo que, sobretudo no sul do território português, as
ancestrais tradições mouriscas permanecem vivas muitos séculos depois da
cristianização total do território e da consequente expulsão dos mouros, aliás
posteriormente perseguidos pelos "cruzados" portugueses no norte de África.

Por outro lado, a exposição mediática a que Durão Barroso, então primeiro ministro,
sujeitou o país, quando da nefasta cimeira dos Açores de 2003, não deixou margem
para dúvidas: ficámos na lista dos alvos preferenciais. Mas a "cruzada" de Barroso
era outra: tinha como alvo as suas manifestas ambições de carreira política externa,
aposta ganha pelo próprio, independentemente das qualidades que possam ser-lhe
reconhecidas no cargo que ocupa na União Europeia. Certamente imbuido da tal
ideia pequena de que Portugal é um país pequeno, Barroso desvalorizou riscos e responsabilidades, para atingir o seu alvo. Esperemos agora que o fundamentalismo
islâmico não atinja o seu.

Ver no Ultraperiférico estes posts antigos, e este mais recente.

Fotografia (reedição) > Foto Camacho (Portugal)
> Açoteias, Olhão, 1966 (foto © FC/CRO).
[R]

Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

ANO 2



Tarda por motivos vários (traições do novo template, por exemplo) a prometida
renovação desde blogue, prematuramente anunciada em Novembro. Entretanto
assinalamos a data do segundo aniversário porque, embora não pareça, as coisas
estão a mexer.
[P]

Fotografia > Duane Michals (n.1932), EUA
> A story about a story,
1995
[R]

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

MAUS HÁBITOS



Desejamos um bom ano de 2008 a todos os fumadores activos e passivos, sem
discriminação. E que a revogação dos excessos legislativos esteja para breve.

A fotografia das senhoras acima, fumando desalmadamente à porta do refeitório
conventual, é uma reedição de imagem tirada do post em que se escreveu sobre o
vício que tanto atormenta puritanistas e legisladores portugueses.
[R]

Leituras fumegantes:
> Sérgio Lavos: Eu, pecador, me confesso
> Daniel Oliveira: Santos da casa
> Fernanda Câncio: O inspector, a lei, a cigarrilha, o casino e o país pacóvio
> Irmão Lúcia: Bem prega frei ASAE

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

TÃO ALTA




Ó águia que vais tão alta
voando de pólo em pólo

leva-me ao céu onde eu tenho

a mãe que me trouxe ao colo


A mãe que me trouxe ao colo

que me está fazendo falta

voando de pólo em pólo

ó águia que vais tão alta.

Em Dezembro, neste dia, em pensamento.
[P]

Versos > Canto popular alentejano
Vozes > Amina Alaoui (n.1964), Marrocos
> Grupo Coral da Casa do Povo de Serpa, Portugal
com a Orquestra Sinfónica de Córdoba, Espanha
in Terra de Abrigo, ed. Ocarina, 2003
Fotografias > Propranolol, Ultraperiférico.
[P]

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007



[PF#12]
Tratado.
Enquanto o Ultraperiférico não avança com a prometida renovação, parece-me
que o melhor é entreter o blogue com efemérides. De modo que não resisto a
comentar o acontecimento do dia, a cerimónia de assinatura do Tratado de Lisboa.
Estava tudo muito bonito, sim senhor, não há dúvida que houve cuidado. Excepto,
naturalmente, Dulce Pontes. Numa cerimónia deste teor não pode submeter-se
a assistência ao triste espectáculo de quem se apresenta em palco vestida e
penteada com esfregonas do minipreço, que se mexe e remexe como se fosse uma
contorcionista e, muito mais grave ainda, com uma incapacidade irremediável para
entender que a arte de cantar não tem nada a ver com gargarejos e piruetas vocais
até ao limite do suportável pelo ouvido humano.
Sinceramente, Portugal já não pode permitir-se passar por vergonhas destas. Há
por aí tantas cantoras com vozes bonitas e com a imprescindível noção estética do
que é uma presença em palco.
Teria sido tão simples. E estava tudo a correr tão bem...
[PF]

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Sexta-feira, Novembro 23, 2007

VERGONHA



No espaço de apenas três semanas, por diferentes razões, sairam nos jornais duas
notícias referentes à existência em Portugal de obras de dois grandes mestres
italianos, por coincidência, ambos venezianos e ambos pintores de génio:
Tintoretto e Tiepolo.
Primeiramente, foi noticiada a "descoberta" de A Adoração dos Magos, enorme
tela de Jacopo Tintoretto (1518-1594), pertença do convento de Singeverga. Um
facto feliz, mas que não deixa de ser sintomático da deficiente ou tardia investigação
histórica em torno do património artístico nacional que se encontra na posse da
Igreja.
Surge agora uma má notícia que deveria cobrir de vergonha as classes dirigentes
do país, potenciais mecenas incluídos: foi declarado pelos responsáveis do Ministério
da Cultura que o Estado não irá exercer o seu direito de preferência na compra da
pintura Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo, classificada
desde 1939 como obra de interesse público, e que desde essa data está impedida de
sair de Portugal. A obra vai a leilão em Lisboa no próximo dia 29, com uma base de
licitação de 1.250.000 euros. Nada disto constituiria escândalo se os nossos
principais museus não carecessem de autores e obras de arte de primeiro plano,
nomeadamente no que respeita à pintura italiana. A inexistência em Portugal de
políticas de aquisição, ou melhor dizendo, de políticas de investimento em bens
artísticos, que complementem lacunas e enriqueçam as colecções já existentes,
tem uma longa história de incúria e desprezo pela arte. Na triste (ultra)periferia
museológica em que o país permanece, não é tido em consideração o exemplo dos
principais museus internacionais que, apesar da dimensão e relevância das suas
colecções, continuam a desenvolver fortes políticas de aquisição.
Por cá, a desculpa é a mesma de sempre: que faltam meios ao Estado, que o dinheiro
não chega para tudo... Mas então, porque não se encurtam gastos sumptuários, a
começar pelas despesas dos Ministérios?
[R]

Pintura > Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), Itália
> Deposição de Cristo no Túmulo, c. 1765?. Colecção Particular
(leilão da casa Leiria & Nascimento, Lisboa)

[Adenda > 30. Nov.2007]
Júbilo, é a palavra certa. O Estado acabou por exercer o seu direito de opção na
compra da pintura de Tiepolo, como já se previa em vésperas do leilão.
Afinal, houve vergonha.
Não era coisa que se pudesse desprezar, uma parede
no MNAA
com três obras do grande mestre veneziano .
[R]

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Terça-feira, Novembro 13, 2007

RENOVAÇÃO

Pedimos mais alguns dias de paciência aos leitores que continuam a visitar-nos.
Em breve traremos novidades: a necessária renovação gráfica do Ultraperiférico
e a criação de 2 novos blogs associados. Até logo!
[R]

Domingo, Outubro 21, 2007

[citação 29]
COLOCA AS TUAS MÃOS



Coloca as tuas mãos sobre a pedra
coloca de frente para o mar os muros
que cercam os corpos
aceita a noite que os habita
e sorri. Verás que as aves
fazem ninhos sobre os muros
e sob as tuas mãos se desenha
a rara luz.

Felicita-se o blogue Certos Sons pelo primeiro ano de poemas acompanhados de
fragmentos de obras de arte. Memórias em zoom. A simplicidade, sempre difícil,
de cruzar enigmas poéticos.
É também um raro blogue de resistência à ilustração, utilizando imagens alheias sem
as aniquilar ou vampirizar, simultâneamente enfrentando o tabu da fragmentação.
[R]

Citação/Poema > Victor L., Portugal
> Coloca as tuas mãos, 2006 (
Poema 6, in Certos Sons)

Fotografia > José M. Rodrigues (n.1951), Portugal

> Solo, 2006
(fragmento de uma fotografia da série Solo)
[R]

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Segunda-feira, Outubro 08, 2007

POLÉMICA NO MUSEU



Em entrevista recente de Paulo Henriques ao Diário de Notícias, este jornal destaca
em título: "O Museu de Arte Antiga não tinha plano de exposições para
2008
". As surpreendentes declarações do novo director do MNAA sobre a gestão
da sua antecessora foram praticamente ignoradas nos media e na blogosfera, os
mesmos que há apenas dois meses tanto se indignavam pela não-recondução de
Dalila Rodrigues, acusando os responsáveis do Ministério da Cultura de saneamento
ideológico e desprezo pela competência.
Para além dos problemas da programação temporária, vale a pena reter outros
aspectos da entrevista em que Paulo Henriques, um mês após assumir o cargo, faz
questão de se demarcar da gestão de Dalila, propondo um novo estilo de direcção, nomeadamente reestruturando a exposição permanente. Adverte porém: "Não
esperem de
mim que comece a desmanchar só para mudar". A anunciada criação
de um conselho consultivo do MNAA e o propósito de aprofundar a investigação
sobre colecções e reservas, são ainda aspectos a destacar da entrevista.
Tal como se assinalou aqui, a mediatização do caso Dalila podia ter sido uma boa
oportunidade para debater e questionar as políticas museológicas do Estado e os
problemas do principal museu nacional. No entanto, esperemos que nem tudo se
tenha perdido, que desta vez os assuntos de política cultural deixem de ser tratados
com a habitual ligeireza, e que a politiquice e a exploração dos escândalos de ocasião
deixem de se sobrepor ao interesse público.
Algo não bate certo e a situação deve considerar-se grave, visto que, como é sabido,
os projectos expositivos de um grande museu são planeados a longo prazo, por vezes
a um ou mais anos de antecedência. Aquilo de que este caso parece ser sintomático,
é terem sido as manobras de bastidores a comandar os acontecimentos. Se Dalila
Rodrigues não deixou no MNAA um plano completo de exposições, estando apenas
prevista uma exposição de escultura contemporânea para 2008, como explicar as
declarações ao semanário Sol, uma semana antes de lhe ter sido comunicado o fim da
sua comissão de serviço: "Sobre o futuro, Dalila Rodrigues afirmou que tem
a programação de 2008 fechada, mas não tem a garantia de que ela se vá concretizar, já que a aprovação da dotação orçamental para o museu só acontecerá em Janeiro
".
Depois das declarações de Paulo Henriques, podemos conjecturar se Dalila teria um
plano secreto de programação. Ou se teria anulado contratos e projectos antes da sua
saída, para não favorecer o sucessor. Ou se nunca chegou a existir um verdadeiro
plano. Ou se, tendo a certeza antecipada de que não iria ser reconduzida, não quis
empenhar-se na programação. Porém, seria difícil prejudicar desse modo o MNAA,
dispondo este de uma equipa residente de conservadores e técnicos de museologia,
tal como seria difícil encenar um "estado de choque" após o seu afastamento da
instituição.
Afinal, a quem compete esclarecer a verdade? Porquê, o silêncio de Dalila?
[R]

Pintura > Jacopo da Pontormo (1494-1557), Itália
>
Alessandro de Medici (pormenor), c. 1535. Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga.
[R]

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Segunda-feira, Outubro 01, 2007

A LIGHT IMPRESSION



25 anos depois da abertura da Ether... é sem dúvida um acontecimento. Porém, a
nova galeria na 16 Navegantes St. (Rua dos Navegantes, 16), Lisbon (Lisboa),
Portugal (Portugal), tem um "site" exclusivamente em língua inglesa. Mais parece
coisa pacóvia. "A light impression" (or is it a bad impression?), sobre fotografia
portuguesa.

A estratégia principal da galeria talvez seja a da necessária internacionalização ou da
circulação da fotografia portuguesa no mercado internacional. Está bem, trata-se de
uma iniciativa louvável de Luis Trindade, que devemos assinalar. No entanto, ainda
que o mercado globalizado nos imponha um império idiomático, não creio que a
exclusão da língua que se fala no país onde está sediada a galeria, seja um caminho
certo.
A Gallery P4 Photography inaugura na 4ª feira, 3 de Outubro, com a exposição
Atlas, que reúne fotografias de Carlos M. Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca.
Ficamos à espera do site bilingue. Good luck! (Felicidades!)
[R]

[Adenda > 4 Out. 2007]
A propósito da opção da P4Photography em "limitar toda a comunicação para o
exterior a uma língua" (a língua inglesa), salienta Carlos Miguel Fernandes que
a opção não foi bem recebida, e em certos casos o ataque até tem sido
um pouco rude
.
Lamento que uma opinião pessoal possa ter sido lida como ataque, uma vez que
apenas pretendi alertar para aquilo que deve ser considerado uma lacuna de
comunicação, e apenas isso, no contexto de um projecto que até poderá ser inovador.
Não se contesta nem o projecto, nem o seu responsável, nem os restantes
intervenientes.
Frequentemente desprezada em Portugal, a comunicação bilingue é uma questão
de princípio. Projectos privados dirigidos ao público e ao mercado não estão
isentos de responsabilidade cultural, tanto mais que a identidade do projecto P4
assenta na fotografia portuguesa, e esta não é dissociável dos restantes factores
identitários do país, particularmente da língua. A universalidade, ou neste caso
a internacionalização, não se faz abdicando da identidade.
[R]

Fotografia > Eduardo Portugal (1900-1958), Portugal
> Tecto pintado com as Armas de Portugal, Igreja da Misericórdia de Alenquer,
s/d (c. 1940),
(fotografia duplicada com inversão), Colecção Particular
[R]

ver também (em actualização):
> Madalena Lello, Atlas
> Alexandre Pomar, Atlas - dia 3
> Carlos Miguel Fernandes, Inglês ou Português?

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[PF #11]
O colar da Ministra.
Há por aí alguém interessado em saber o que aconteceu com o colar de contas de
vidro da Ministra da Cultura? É fácil. Basta ir à pág. 5 do último Expresso. Está lá
tudo. Também lá está tudo sobre o nobre objectivo dos entrevistadores, a saber:
pôr a senhora suficientemente nervosa para que o texto pudesse ser escrito
ao melhor estilo tablóide. A não perder!
Se por qualquer motivo o leitor estiver também interessado em conhecer as políticas
culturais nas áreas do património, museus, música, teatro, cinema... Bom, então é
melhor procurar noutro sítio, não sei muito bem onde... mas que diabo, há-de haver
por aí algum jornal que considere útil informar o cidadão sobre mais qualquer
coisinha que não seja o sensacionalismo do futebol e das politiquices caseiras.
Há-de, não há-de?
[PF]

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Quarta-feira, Setembro 26, 2007

HUMILDADE


Vários autores se têm pronunciado sobre as chamadas três grandes humilhações que
a ciência infligiu à megalomania humana: a cosmológica, a biológica e a
psicológica
. São três bofetadas no egocentrismo da humanidade. A primeira,
quando Copérnico mostrou que a terra, longe de ser o centro do universo, não passa
de uma insignificante parcela do sistema cósmico. A segunda, quando Darwin,
Wallace e os seus predecessores, reduziram a nada as pretensões do homem a um
lugar de eleição na ordem da criação. A terceira, quando Freud demonstrou
(Introdução à Psicanálise) que o eu não é soberano na sua própria casa, onde
sobrevive à custa de uma luta permanente contra um id pulsional e um superego
castigador. Tema polémico e objecto de muitos estudos e contraposições posteriores,
esta afirmação de Freud merece reflexão e permanece actual.
Tal como refere Marie Balmary (La Divine Origine), o efeito Copérnico põe em causa
o lugar do homem, o efeito Darwin ofende a sua genealogia, o efeito Freud atinge a
sua alma. Mas creio que actualmente nos confrontamos com nova humilhação:
sobretudo a partir da II Guerra Mundial, a manipulação humana dos ecossistemas,
o uso e abuso dos combustíveis fósseis, a ausência de critérios bioclimáticos
adequados, acarretaram desequilíbrios que agora se viraram contra nós.
As mudanças climáticas provocadas pelo aumento das emissões dos gases com efeito
atmosférico de estufa, são disso exemplo. Um dos efeitos do aquecimento global neste
século está bem patente no acréscimo da intensidade e frequência das vagas de calor.
Digamos que a natureza mostra que não é propriedade do homem mas sua
proprietária, que não é sua súbdita mas sua soberana, ao implicar a destruição do
homem na mesma medida em que por ele vai sendo destruida. Às três humilhações
do homem pela ciência, sucede assim uma outra, bem mais devastadora, infligida
pela própria natureza que ao ser humilhada exige humildade.
E a humildade é, para a arrogância humana, a suprema humilhação.
[P]

Pintura > Quentin Metsys (1466-1530), Bélgica (Flandres)
> A Duquesa Feia, 1525-30, Col. National Gallery, Londres
[R]

[Adenda > 29 Set. 2007]
O belo e o horrível estão desde há muito presentes na história da arte. Vêmo-los
coexistirem em cada época, nas várias expressões artísticas,
no mesmo autor ou até
numa mesma obra. Partes do mesmo todo, que nos provocam atracção ou repulsa,
interpelando o sentido da arte e da própria condição humana. Faces da mesma
moeda, os contrários potenciam-se, podem detonar-se mutuamente.
Esta Duquesa Feia do grande Quentin Metsys, um dos mestres flamengos que
mais terá influenciado a pintura portuguesa do século XVI, é certamente um retrato
ficcionado de uma dama aristocrata, uma representação caricatural da fealdade
que tantas vezes se esconde atrás dos mais nobres rostos. Ou talvez,
considerando
o contexto religioso da obra de Metsys e de alguns dos seus contemporâneos, como
Hieronymus Bosch,
se trate afinal de uma pintura que cruza metaforicamente o
profano e o sagrado.
[R]

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Segunda-feira, Setembro 17, 2007



[PF #10] Buracos.

Venho por esta via solicitar ao Sr. Presidente da Câmara de Lisboa, o favor de colocar
na agenda para a capital, uma alínea que contemple a reconstrução integral da (quase)
totalidade dos pisos das ruas da urbe. É uma dor de cabeça para qualquer um, sem
dúvida, mas a responsabilidade, lamentamos, passou para as suas mãos. Nestas
circunstâncias, veja lá se canaliza as verbas indispensáveis e se começa por uma
ponta. Uma ponta qualquer, não perca tempo a estabelecer prioridades, está tudo
uma lástima. Vai ver, Sr. Presidente que, se conseguir reconstruir uma média de dez
a vinte ruas por semana, bastarão dois (quando muito três) mandatos para dar às
ruas de Lisboa um aspecto banal, tão banal como o de qualquer outra cidade europeia
a partir de Ciudad Rodrigo ou Badajoz. Porque nós queremos mesmo deixar de
pertencer ao terceiro mundo. Verdade?
[PF]

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Terça-feira, Setembro 11, 2007

11 DE SETEMBRO



E se duas bombas se encontrassem em pleno voo a caminho do alvo? Daquele alvo tão
legítimo. Como comunicavam? Nem todos falam inglês. Nem mesmo inglês dos EUA.

Existem mais de duzentos países no mundo. Alguém disse que o mundo não mudou,
apenas mudou a maneira como olhamos para ele.

Em 11 de Setembro de 2001 o mundo ficou mais fraco, mais igual a si próprio. É uma
mudança?

[Espiral]

Pintura > Francisco de Zurbarán (1598-1664), Espanha
>
San Sérapin, 1629, col. Wadsworth Atheneum Museum of Art, Hartford, EUA
[R]

Quinta-feira, Agosto 23, 2007

[citação 28]
SER-UNS-COM-OS-OUTROS




Ser-uns-com-os-outros no mundo, tê-lo enquanto uns-com-
-os-outros, tem uma determinação ontológica especial.
A modalidade fundamental do ser-aí do mundo, que este tem
aqui em-comum-com-os-outros, é o
falar. Falar, no seu sentido
pleno, é: falar
com outrem expressando-se acerca de alguma
coisa. O ser-no-mundo do homem sucede predominantemente
no falar. Aristóteles já o sabia.

Citação > Martin Heidegger (1889-1976), Alemanha
> in "O conceito de Tempo" (conferência de Marburgo, 1924), ed. Fim de Século,
Lisboa, 2003.
[P]

Pintura > Hans Arp (1887-1966), Alemanha/França
> Sem Título (Abstracção), 1926, Museu Colecção Berardo.
[R]

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Sexta-feira, Agosto 10, 2007

IRMÃO NOSSO DE CADA DIA



Como estamos de férias, apetece-nos ignorar tudo o que é fútil e desagradável.
Preferimos celebrar o milagroso irmãolúcia de todos nós, e seu eloquente
humor ao próximo.
Uma advertência: a bela irmã Alice aqui apresentada é uma autêntica Mariana
Alcoforado. Perigosa, portanto, como estoutras. Ofertamo-la ao altar-mor virtual
de nosso virtuoso pastorinho-rabiscador, na esperança e fé que o lúcido irmão
guarde recato e voto de castidade.
[R] / [PF]

Fotografia >
Eduardo Portugal (1900-1958), Portugal
>
Alice, 1928, prova em platina virada a sépia (enxofre) , (foto © FH/CRO).

[Adenda] Eduardo Macedo d'Elvas Portugal, fotógrafo, foto-editor e coleccionador
de fotografia antiga, depois de concluir estudos comerciais em 1915, tornou-se
arquivador bancário, até 1932, data em que ingressou na casa comercial de seu
pai, a Chapelaria Portugal & Dinis, em Lisboa.
Começou a fotografar como amador, possivelmente no início da década de 1920,
adquirindo em breve um estatuto semi-profissional.
Além do seu trabalho de
documentação da paisagem e monumentos de Lisboa e de outras localidades do
centro do país, maioritariamente destinado à edição postal, realizou também
fotografias com outras ambições, influenciadas pelas tendências pictorialistas da
época e produzidas em formatos "nobres". É o caso do retrato Alice (1927), no
qual em contraste com as zonas negras do hábito da jovem religiosa o fotógrafo
procurou tirar partido das zonas brancas que "emolduram" o rosto e dão ao
pescoço coberto uma estranha configuração alongada.
Grande parte do espólio de Eduardo Portugal, hoje na posse do Arquivo
Fotográfico Municipal de Lisboa, permanece por estudar e divulgar. Da exposição
monográfica que lhe foi dedicada pela LisboaPhoto (2003), nunca chegou a
ser publicado o previsto catálogo.
[R]

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Quarta-feira, Agosto 08, 2007

[citação 27]
O POVO COMPLETO



O povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo
todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses,
só vos faltam as qualidades.

Citação > José de Almada Negreiros (1893-1970), Portugal
> in "Ultimatum futurista às
gerações portuguesas do século XX",
Portugal Futurista,
1917.

Fotografia > Anónimo (séc. XX), Portugal
> Retrato de Almada Negreiros, s/d (fonte iconográfica: Bibliomanias)

Esta frase inconformista e provocatória, utilizada num dos nossos primeiros posts
e agora reeditada,
podia ter ficado como citação permanente do Ultraperiférico.
Afinal, o que mudou em Portugal quase um século depois do Ultimatum ?
[R]

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Sábado, Agosto 04, 2007

O PECADO DE DALILA



É sabido que os assuntos de política cultural e os acontecimentos artísticos do
país raramente merecem a atenção dos orgãos de informação, particularmente
das televisões, que privilegiam quase sempre o que julgam ser o interesse dos
consumidores, isto é, economia, desporto, escândalos e cataclismos. Na categoria
"escândalos" foi agora amplamente noticiado o afastamento da mediática Dalila
Rodrigues do cargo de directora do principal museu português, o Museu Nacional
de Arte Antiga > MNAA, e a sua substituição por Paulo Henriques, actual director
do Museu do Azulejo.
Na generalidade dos media, e também na blogosfera, as vozes de indignação
substituiram-se às questões de fundo. Independentemente do dinamismo que
Dalila imprimiu ao MNAA nos últimos três anos e dos bons resultados obtidos,
em termos de adesão de público e de receitas, o caso implicaria um debate sobre
a pertinência das políticas museológicas do Estado, uma vez que desde há muito
os museus portugueses vêm sendo menorizados, como se os tesouros patrimoniais
neles reunidos, não passassem de parentes pobres.
Perde-se assim uma boa oportunidade para debater e questionar. Os museus
portugueses são ou não são geridos e divulgados de acordo com as necessidades
do público e as estratégicas culturais do país? O modelo de gestão que Dalila
reivindicou publicamente, é ou não é o mais apropriado? Será legítimo que Dalila
tenha vindo protestar nos media contra as políticas do Instituto dos Museus e da
Conservação > IMC (ex-IPM)?
O erro de Dalila não tem a ver com a defesa das suas ideias, tem a ver com o facto
de ter usado o seu estatuto de competência, para fazer publicamente um combate
político ao próprio organismo que a tutela, o IMC, possivelmente convencida de
que os êxitos obtidos no exercício do cargo a colocavam acima das regras de
relacionamento institucional. A audácia saiu-lhe cara. E afinal, todos nós perdemos
quando alguém competente perde a razão.

[Adenda > 05.08.2007]
O caso Dalila Rodrigues transformou-se num enorme escândalo, com consequências
políticas ainda imprevisíveis: depois de dois partidos, o CDS/PP e o PSD, terem
exigido que a Ministra da Cultura se explique no Parlamento, círculos próximos do Primeiro-Ministro afirmam que este não terá sabido de nada e que discordaria
da "metodologia", o Presidente da República declarou a jornalistas o seu apreço
pelo trabalho de Dalila, 16 directores de museus nacionais vieram a público com
um despropositado abaixo-assinado em que se demarcam das posições assumidas
pela directora do MNAA, a que esta respondeu dizendo compreender a posição dos
seus colegas, para garantirem o emprego.
Entretanto os blogues que não estão de férias insurgem-se maioritariamente
contra o que chamam "saneamento ou perseguição à competência". Corre ainda
uma petição online intitulada "Carta Aberta de Apoio a Dalila Rodrigues": http://www.petitiononline.com/Dalila/petition.html .
Dito isto, vou visitar a exposição "O Tapete Oriental em Portugal", no MNAA.

Pintura > Pieter Paul Rubens (1577-1640), Bélgica (Flandres)
> Sansão e Dalila, c. 1609, National Gallery, Londres.
[R]

Pesquisar Dalila Rodrigues [links]
> CDS/PP compara afastamento de D. R. a "prática estalinista" (CDS/PP, Concelhia de Lisboa)
> Dalila e os filisteus (DBH, 31 da Armada)
> Dalila Rodrigues "afastada"... (Alexandre Matos, Mouseion)
> Dalila Rodrigues afastada do MNAA > Arte antiga e cultura de hoje (Alexandre Pomar)
> Dalila Rodrigues Out > Cavaco & Dalila (Eduardo Pitta, Da Literatura)
> Dualidades em dia de Verão > Quem tramou Dalila Rodrigues (LNT, Tugir)
> Quem quer deixar de ser governo - desenvolvimentos (Rui MCB, Adufe)

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Quinta-feira, Agosto 02, 2007

amor ___________________________ amar
amor _ te _________________ te _ amar
te _ amor _________________ amar _ te
te ___ or _________________ ar ___ te
______ or _________________ ar ______
te _______________________________ te
te __ mor _________________ mar __ te
teamo _ r _________________ r _ amate
amo _ r _ te ___________ te _ ama _ r
amo _____ te ___________ te _____ ama
am ______ te ___________ te ______ ma
a _______ te ___________ te _______ a
a _ mor _ te ___________ te _ a _ mar
te _______________________________ te
amar
___________________________ amor
_____________________________________
_____________________________________
_____________________________________
_____________________________________
_____________________________________

amoramar,
> poema experimental, poema visual, poema digital, poemografia, poema concreto,
ou poema outra coisa
ainda (tudo menos escrita criativa), porque está fora de moda
ou usa-se pouco, talvez para actualização (em português, work in progress), que te
dedico
hoje, a gosto, dois.
[r]

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Quarta-feira, Agosto 01, 2007

INGMAR BERGMAN (1918-2007)




MICHELANGELO ANTONIONI (1912-2007)




Fotografia/Cinema > Ingmar Bergman (1918-2007)
> Persona (Bibi Anderson e Liv Ulmann), 1966

Fotografia/Cinema > Michelangelo Antonioni (1912-2007)
> Blow Up (David Hemmings e Veruschka), 1966

Dois grandes filmes realizados no mesmo ano por dois dos maiores criadores do
século XX, ambos falecidos anteontem, 30 de Julho 2007. Não sabemos se
os seus
filmes são eternos, o que sabemos é que eles serão recordados enquanto
houver
memória do cinema. E sabemos também que nós, espectadores, ou pelo
menos
quem viu estas obras e se deixou ver por elas, recordaremos
aqueles momentos
mágicos, únicos, em que imagens e palavras ficaram para sempre gravados na

pequena história de cada um.

[R]

[links]
Ingmar Bergman Face to Face

Ingmar Bergman Foundation
Michelangelo Antonioni Archives
Senses of Cinema - Michelangelo Antonioni

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BRANCO SUJO



Saúda-se o teu regresso a casa, à maneira de Hitchcock. Nestes cinco meses, José,
o mundo ainda não mudou, mas acreditemos: a esperança é a última a morrer.
[R]

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Domingo, Julho 29, 2007

CARTIER-BRESSON EM ÉVORA



Ao vivo e a preto e branco, durante quase mais um mês, para ver ou rever em
Évora, Um Silêncio Interior: Os Retratos de Henri Cartier-Bresson, no Fórum
da Fundação Eugénio de Almeida (> FEA). Com encerramento previsto para hoje,
29 de Julho, a exposição foi afinal prolongada até 26 de Agosto. Uma boa notícia
para os admiradores do mestre francês, referenciado em todo o mundo sobretudo
após a sua morte, em 2004, como "o olho do século".
Depois de Europeus (CCB, Lisboa, 2001), podemos agora em Portugal aceder a
uma outra visão, digamos, mais intimista da obra fotográfica de Cartier-Bresson,
nesta exposição notável concebida em Paris pela (>) Fondation Henri Cartier
-Bresson
(Le silence intérieur d'une victime consentante, 2006), a partir do
espólio do fotógrafo.
Excelente catálogo em versão portuguesa, cujos critérios editoriais e qualidade de
impressão bem podem servir de exemplo às instituições nacionais que trabalham
com fotografia. A exposição abrange quase todo o percurso do fotógrafo, de 1931
a 1999, contendo maioritariamente provas de época, muitas das quais inéditas.
Montagem rigorosa e eficaz, com um aliciante adicional: partilhar "silêncios
interiores" de numerosas figuras marcantes do século XX, sobretudo artistas e
intelectuais como Marcel Duchamp, Henri Matisse, Alberto Giacometti, Ezra Pound,
Samuel Beckett, André Breton, Jean Genet, ou estrelas do mundo do espectáculo
como Edith Piaf e Marilyn Monroe.



Para reflexão, aqui fica uma citação das palavras do próprio Henri Cartier-Bresson
(texto parietal da exposição):
"Procuro sobretudo um silêncio interior, traduzir uma personalidade
e não uma
expressão. Ao mesmo tempo faz falta a geometria".

Fotografia > Henri Cartier-Bresson (1908-2004), França
> Isabelle Huppert, Paris, 1994, Col. FHCB, Paris
> Pierre Colle, Paris, 1932, Col. FHCB, Paris
[R]

[Adenda > 30.07.2007]
Decidi juntar no mesmo post duas fotografias muito diferentes e explorar o que
formalmente as distingue - ordem, desordem - mas também o que as aproxima
enquanto atitude artística.
Realizadas a mais de sessenta anos de distância uma da outra, nota-se em ambas
o olhar implacável de Cartier-Bresson, a sua não-cedência às convenções do retrato.
Ambas mostram "victimes consentantes", em suas casas, sem poses: Isabelle
Huppert deixa-se fotografar sentada no sofá como se uma longa espera a tivesse
aborrecido, enquanto Pierre Colle
, ainda na cama, parece ter sido surpreendido
pela chegada do fotógrafo antes da hora esperada.
No retrato de Huppert tudo está arrumado: a metade superior da imagem, em
fundo, contendo três planos paralelos verticais (porta e paredes) e um primeiro
plano ligeiramente oblíquo,
formado pelo sofá, correspondente à metade inferior
da imagem
. E neste "décor", destaca-se a massa negra da camisola de lã que
cobre o tronco da actriz
reclinado quase ortogonalmente no sofá, e o seu belo rosto
recortado no centro da composição, emoldurado pelos braços, espécie de fotografia
dentro da fotografia.

Completamente diferente é o retrato de Colle, sem planos estáveis nem linhas
verticais ou horizontais estruturantes da composição, apenas linhas oblíquas e
um emaranhado de tecidos (lençóis e cobertores), do qual emerge o rosto invertido
do retratad0, olhando para trás. Em primeiro plano, um triângulo de soalho, de
luzes baixas, onde brilham sapatos negros.
Numa e noutra imagem o fotógrafo introduziu factores inesperados corrigindo a
ordem ou a desordem excessivas. As cabeças dos retratados são, por assim dizer,
máscaras e
contrapontos, que nos remetem, tal como os sapatos de Colle, para
o vocabulário do surrealismo.
[R]

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Quarta-feira, Julho 25, 2007

[citação 26]
OS BONS E GENEROSOS



Os bons e generosos
a nossa voz entendem
e com arroubo atendem
ao nosso rouco som;
mas só os ignorantes
e férridos e duros,
imbecis e obscuros,
nom nos entendem, nom.

Citação > Eduardo Pondal (1835-1917), Galiza
> in Poesía, Biblioteca das Letras Galegas, ed. Edicións Xerais de Galicia, 2003.
(excerto de Os Pinheiros, Hino Nacional Galego)

Pintura > José Dominguez Alvarez (1906-1942], Portugal/Galiza
> Compostela, 1933 (fonte iconográfica: Palácio do Correio Velho)

25 de Xullo, Día da Patria Galega
[P]

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Segunda-feira, Julho 23, 2007

SUMMERTIME




Andávamos há uns tempos com esta ideia na cabeça: dar um passeio pelo extremo
sul da costa alentejana e ficar um dia inteiro na Praia do Brejão, mais conhecida por
Praia da Amália. E foi assim que no Verão passado um grupo de madrugadores partiu
Alentejo fora, a caminho da praia dela.
À chegada, pegámos em farnéis e geleiras e lá iniciámos a descida através de densa
vegetação entre um riacho e a propriedade agora abandonada que pertenceu a
Amália. Através dos arbustos, vislumbrava-se a casa, ainda com as flores grandes
de cores garridas que ela própria pintou, aqui e ali, no branco das paredes. Mais
abaixo, junto à falésia, a azenha onde ela costumava sentar-se quando passeava por
aquela paisagem soberba. A partir daí, a descida faz-se pelos degraus que ela mandou
construir até ao areal.
Abandono e lixo acumulado mostram como naquele sítio quase tudo mudou. Até
a praia que parece ter sido, digamos, paradisíaca, tinha agora um aspecto desleixado,
com mais gente que o previsto, e sobretudo com muito lixo. Mesmo assim demos
uns bons mergulhos naquelas águas magníficas e saboreámos um lauto piquenique
na areia à sombra de uma rocha.
Tínhamos feito questão de levar champanhe no farnel. De maneira que depois do
último mergulho, subimos o mesmo carreiro sinuoso no meio do emaranhado da
vegetação e fomos sentar-nos no alto das falésias sobre o mar.
Ao pôr-do-sol abrimos a garrafa de champanhe e fizémos um brinde a Amália.

Em honra de Amália, nascida (oficialmente) a 23 de Julho 1920.
(v. também 1 de Julho)
[P]

[Adenda > 2.8.2007]
Aviso aos numerosos pesquisadores do Google, em busca de Praia da Amália:
Não vos passe pela cabeça partir de viagem sem ouvir Summertime, interpretado
pela própria Amália,
basta carregar num pequeníssimo botão abaixo da imagem.
A todos desejamos boa praia! E não esquecer, deitar o lixo no lixo.
[R]

Fotografia > José M. Rodrigues (n. 1954), Portugal
> Praia da Amália, 2006 (foto © José M. Rodrigues, cortesia do autor)
[R]

Voz > Amália Rodrigues (1920-1999), Portugal
Música > George Gershwin (1898-1937), EUA
> Summertime, in "Amália na Broadway" (1965), orquestra de Norrie Paramor,
ed. Valentim de Carvalho, 1985
(> v. Summertime > v. G. Gershwin)
[H]

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Quinta-feira, Julho 19, 2007

[citação 25]
VIVEMOS ADORMECIDOS



Vivemos adormecidos num mundo sonolento. Mas se um tu
murmurar ao nosso ouvido, é isso o que sacode as pessoas: o
eu
desperta graças ao
tu. A eficácia espiritual de duas consciências simultâneas, reunidas na consciência do seu encontro, escapa
subitamente à causalidade viscosa e contínua das coisas.
O encontro cria-nos: não éramos nada - ou nada mais que
coisas - antes de estarmos juntos.

Citação > Gaston Bachelard (1884-1962), França
> in Je et Tu, de Martin Buber (prefácio de G. Bachelard, trad. Propranolol),
ed. Aubier, Paris, 2001.
[P]

Pintura > Mark Rothko (1903-1970), EUA
> Orange and Yellow, 1956, Col. Albright-Knox Art Gallery, Buffallo, NY.
[R]

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Segunda-feira, Julho 16, 2007

ALENTEJO CONTEMPORÂNEO



Um Verão quente para as artes visuais contemporâneas, no campo da museologia:
depois de Lisboa, com a abertura do Museu Colecção Berardo, a 25 de Junho, chegou
agora a vez do Alentejo, onde no espaço de uma semana inauguraram duas novas
estruturas museológicas, o Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE)
e o museu da Fundação António Prates (FAP), respectivamente nos dias 6 e 13
de Julho, ambas resultantes de iniciatiativas de coleccionadores privados - António
Cachola
, em Elvas, e António Prates, em Ponte de Sôr - empresários que
realizaram contratos de parceria com os poderes autárquicos das duas cidades.
Sendo o Alentejo, reconhecidamente, uma das regiões do país economicamente mais
deprimidas, é preciso sublinhar o esforço que representa a criação destes museus,
tanto mais que nenhuma das três capitais de distrito alentejanas - Portalegre, Évora,
Beja - cidades com outro peso patrimonial, e também outras responsabilidades
culturais, possui por enquanto estruturas congéneres.
Devemos pois saudar a ousadia destes projectos pioneiros, relevantes no âmbito das
relações culturais transfronteiriças e na revitalização do interior sul do país, pese
embora algumas insuficiências de programa e conteúdos museológicos, bem como
lacunas no campo da divulgação, patentes por exemplo na página web do MACE,
integrada no site da autarquia
(sem design condigno, nem documentação iconográfica
da colecção, e com textos apenas em português), ou no facto de não ter sido ainda
lançado um site da FAP, entre outros aspectos que os responsáveis procurarão
certamente corrigir.

Não faltam boas surpresas no MACE, que visitámos no último fim-de-semana:
Desde logo, somos recebidos por funcionários afáveis e competentes, o que não é
coisa menor neste tipo de instituições. Outra surpresa, é a excelente intervenção
arquitectónica nos espaços interiores do antigo Hospital da Misericórdia de Elvas,
núcleo principal do museu, cujo projecto foi coordenado pelo arquitecto Pedro
Reis
, com a participação dos designers Henrique Cayatte e Filipe Alarcão.
O diálogo entre o património do passado e as linguagens artísticas contemporâneas
é neste museu um dos aspectos mais aliciantes, também favorecido pela sua
localização na zona mais nobre do centro histórico, próximo da praça da Catedral.
Todavia, tanto o edifício como a sua localização constituem as principais limitações
do museu, devido ao insuficiente espaço de que dispõe, havendo que recorrer a
núcleos externos, complementares, que ampliem a actual capacidade expositiva.
Quanto às obras da Colecção Cachola seleccionadas para a actual montagem, há que
referir a presença predominante de novos artistas a par de outros já consagrados,
estando ainda ausentes vários nomes de referência no contexto da arte portuguesa
das últimas décadas. É de destacar, por fim, a presença de instalações e peças de
grande porte, como A culpa não é minha (2003), de João Pedro Vale, Expectativa
de uma Paisagem de Acontecimentos
(2007), de Fernanda Fragateiro, ou a
emblemática A Noiva (2001), de Joana Vasconcelos, entre outras peças que
confirmam a intenção pública da colecção.

[Adenda > 18.07.2007]
Sobre o MACE, um texto crítico a não perder, no blog de Alexandre Pomar.

[Adenda > 20.07.2007]
O blog Fundação António Prates, foi lançado hoje mesmo. (http://fundacaoantonioprates.blogspot.com) .

Objecto/Instalação > Joana Vasconcelos (n.1971), Portugal
> A Noiva, 2001. Col. António Cachola/MACE, Elvas
(peça constituída por tampões OB,
apresentada na Bienal de Veneza 2005)
[R]

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Quinta-feira, Julho 12, 2007



[PF #9] Urbanidades.

A poucos dias das eleições autárquicas intercalares de Lisboa, sucedem-se as
tentativas de descredibilização de figuras relevantes da candidatura de António
Costa. De súbito, desvio ético, conluio, corrupção, passam a envolver os nomes de
José Miguel Júdice e de Manuel Salgado. E isto a propósito do convite dirigido a
Júdice para coordenar a reabilitação da zona ribeirinha de Lisboa, ou a Salgado
para número dois da lista de António Costa. Num país marcado por compadrios
de toda a espécie, sobretudo justamente na caótica área do urbanismo, não deixa
de ser curioso que Roseta, Negrão, Carvalho, Correia, Monteiro, Fernandes, se
mostrem indignados pelos convites feitos a gente competente, com provas dadas.
Pobre Lisboa, onde as querelas sempre se sobrepõem à verdadeira discussão sobre
os seus graves problemas, como pudemos constatar no recente debate da RTP.
E talvez fosse útil lembrar também as responsabilidades pela degradação urbanística
do país, incluindo em Lisboa, por parte de muitos autarcas eleitos anteriormente.
É bom lembrar, por exemplo, que a indignação de Telmo Correia não se fez sentir no
passado, com o seu colega de partido e ex-autarca de Marco de Canaveses. O que está
agora em causa, claro, é reduzir a votação em António Costa. E penalizar o governo
através disso. O que os incomoda é o facto deste candidato ter reunido uma equipa
forte, com uma "ideia de cidade" (coisa rara!), e é isso que se pretende desvalorizar.
Evidentemente.
[PF]

[Adenda] > Outro ponto de vista aqui ou aqui.
[PF]

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Quinta-feira, Julho 05, 2007

[citação 24]
A PINTURA



A pintura é uma poesia visível.

Citação > Leonardo da Vinci (1452-1519), Itália

Pintura > Jackson Pollock (1912-1956), EUA
> Painting Number 8, 1949 (col. MoMA, Museum of Modern Art, NY)
[R]

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Domingo, Julho 01, 2007

AMÁLIA




"A escuridão é o seu elemento, figura dominadora mesmo antes de
começar a cantar.
Na semiobscuridade do palco, apenas a sua pálida
beleza luminosa, o seu rosto de
maçãs salientes e boca generosamente
ampla aparecem à luz do projector. Quanto ao
resto, um vestido de
noite negro, de pregas flutuantes, com mangas, que só não lhe
esconde
as mãos. Não usa nem um anel, nem uma pulseira, nem uns brincos,
apenas
um enorme alfinete de diamantes, colocado na cintura, que
cobre com a mão, quando
canta. É a tragédia clássica esculpida na
Terra. Antígona depois de Tebas, Cassandra
depois de Tróia.(...)
Amália não usa truques de voz ou movimentos para chamar a
atenção.
Quando canta, permanece monumentalmente imóvel, embora a cabeça
possa
erguer-se num lamento. "
> H.S., "Queen of Sorrows", in Newsweek, 10 de Fevereiro de 1969.

De Hollywood fui para Nova Iorque fazer outra temporada no La Vie En Rose (...).
Nessa altura não fiquei na América porque não quis. Gravei lá um disco de fado e
flamenco e até me abriram conta no banco para ficar mais tempo e gravar dois
albuns,
com canções de Cole Porter, Gershwin, Jerome Kern. Eu cantava algumas
cantigas
em inglês, Half As Much, I Love Paris e especialmente uma, que fazia muito
sucesso,
Hi-Lili, Hi-Lo, a que eles achavam que eu dava uma mensagem, que dava
profundidade. Mais tarde gravei um disco em inglês e até acho que está bonito,
embora a voz esteja pouco valorizada. Mas levou vinte anos a sair porque eu não
me
decidia. Cantei à minha maneira. Eu sei que não tenho nenhuma obrigação de
pronunciar bem o inglês. Os americanos também não cantam o fado como eu canto.
> in "Amalia - Uma biografia", ed. Presença, Lisboa, 2005

Dedicado a Amália, nascida a 1 de Julho 1920.

[P]

Fotografia > Thurston Hopkins (n.1913), Reino Unido
> Amália, Lisboa, déc. 1950 (col. Culturgest/CGD, Lisboa)
[R]

Voz > Amália Rodrigues (1920-1999), Portugal
Música > Lionel Bart (1930-1999), Reino Unido
> Who will buy, in "Amália na Broadway" (1965), ed. Valentim de Carvalho, 1985
[H]

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Terça-feira, Junho 26, 2007

MUSEU BERARDO (3)



Insistimos: a abertura do Museu Berardo em Lisboa é um acontecimento
histórico
para Portugal.
O museu vem preencher um vazio numa área museológica muito carenciada em
Lisboa e vem colocar o país no mapa artístico internacional, dando também
mais visibilidade a artistas portugueses que passam a poder ser vistos no contexto
dos grandes criadores e dos principais movimentos artísticos internacionais desde
início do séc. XX. Além disso, o museu vem potenciar outros museus já existentes
no país, como o Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e o Museu do
Chiado, ambos em Lisboa, ou o Museu de Serralves, no Porto, com os quais se
espera venham a ser estabelecidas parcerias e projectos comuns.
No campo das parcerias, imagine-se o que seria uma grande exposição dedicada
à Pop Art, que reunisse o excelente núcleo da Pop britânica do CAM/FCG e o
imprescindível núcleo da Pop americana do MCB/CCB, ao qual se juntariam obras
de artistas portugueses ligados à Pop. E imagine-se que essa exposição, depois da
sua apresentação em Portugal, viesse a ter circulação internacional.

É bizarro o modo como a abertura do Museu Berardo tem sido tratada na maioria
dos orgãos de informação e também na blogosfera. Quase toda a matéria noticiosa
e a opinião publicada sobre o assunto incide nas polémicas em torno da personalidade
do coleccionador, ou em questões de ordem financeira relativas aos custos da
manutenção do museu.
Parece que há uma preocupação generalizada entre jornalistas e comentadores de
que Joe Berardo possa ampliar a sua fortuna à custa do Estado português, sendo o
governo acusado por alguns de não acautelar o interesse público.
Subestimam-se deste modo, quer os direitos do coleccionador a usufruir dos bens
por si adquiridos, quer a inteligência da sua estratégia empresarial (que não parece
restringir-se ao investimento financeiro). Subestimam-se ainda as responsabilidades
do Estado no desenvolvimento de políticas culturais de alcance internacional.
E, sobretudo, subestimam-se a relevância artística da colecção e a importância que
o museu terá para o país, quer no plano interno quer externo . É preciso perceber
que há uma geração de jovens portugueses que vai passar a beneficiar do contacto
directo com a história das vanguardas artísticas desde início do séc. XX até ao
presente.

Joe Berardo foi o primeiro português a ousar investir uma fortuna considerável na
criação de uma colecção de contornos internacionais. Ele terá compreendido que as
insuficientes políticas estatais e empresariais neste sector, lhe abriam caminhos de
afirmação a todos os níveis. Berardo, ao contrário da maioria dos empresários
portugueses, é um exemplo de quem, tendo partido do "nada", soube dar um destino
nobre à sua fortuna.
Só podemos concluir, por muito que custe aos nossos mesquinhos media e às nossas
(ultra)periféricas elites, que faltam mais berardos destes em Portugal.

[Adenda]
Alexandre Pomar sugere que seja criado um fundo de donativos destinado
a novas
aquisições do Museu Berardo. Uma boa ideia, que se pode ler aqui.

[Adenda 2 > 30.6.2007]
Não há qualquer referência ao novo Museu Colecção Berardo no site do CCB.

[Adenda 3]
Sobre o lamentável conflito Mega/Berardo veja-se o que escreve Daniel Oliveira,
Sangue azul e massa cinzenta
. É certo qua as afirmações de Berardo foram
infelizes, fruto talvez de ter o "saco cheio", e é pena que ele não se tivesse ficado
pelo "prima dona", tão adequado a Mega Ferreira. Mas também é certo que Berardo
tem dado provas de saber ser aconselhado, pelo menos no que diz respeito à sua
colecção. E isto é especialmente notável, sobretudo num país em que muitos dos que
têm dinheiro e poder ostentam saber do que não sabem, como se não existissem
especialistas e especializações.

Objecto > Marcel Duchamp (1887-1968), França/EUA
>
Boîte (série C), Museu Colecção Berardo, Lisboa
[R]

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Segunda-feira, Junho 25, 2007

MUSEU BERARDO (2)



É impressionante a lista de nomes históricos da arte moderna que integram a Colecção
Berardo: Picasso, Duchamp, Magritte, Delvaux, Calder, Modigliani, Léger,
Pollock,
Dubuffet, Picabia, Man Ray, Fontana, Mondrian, Bacon, Balthus,
Chirico,
Miró, Dali, Ernst, Klein, Hockney, Rauchenberg, Tanguy, Wharol, Lichtenstein, apenas para mencionar alguns dos mais antigos, entre tantos outros.
É certo que faltam, por exemplo, Matisse, ou Rothko, e outras figuras fundamentais,
bem como a valorização de vários movimentos artisticos com obras e artistas de
primeira linha, mas espera-se que tais lacunas venham a ser preenchidas futuramente
através de novas aquisições.

A Colecção Berardo surgiu publicamente em Portugal, pela primeira vez, em 1997, no
Sintra Museu de Arte Moderna. Depois de 10 anos de polémicas, Lisboa passa a
ter, a partir de hoje, o Museu Colecção Berardo, sediado no CCB, o que representa
uma viragem histórica no panorama museológico português, por se tratar de um
museu de referência, de âmbito e relevância internacionais.
O coleccionador Joe Berardo e o governo de José Sócrates fizeram a sua parte, com a
necessária ousadia, que tantas vezes tem faltado ao país no último século. Convictos
de que "isto anda tudo ligado", cabe agora a todos nós multiplicar o exemplo,
incluindo aquele que está contido nas obras de arte.

Objecto > Marcel Duchamp (1887-1968), França/EUA
>
Le Porte Bouteilles, c. 1914-64, Museu Colecção Berardo, Lisboa
[R]

Pesquisar Colecção Berardo (links)
> Museu Colecção Berardo
> Sintra Museu de Arte Moderna
> Colecção Berardo de Arte Moderna
> The Berardo Collection
> Todas as colecções (disponíveis online)

Pesquisar Museu Berardo na blogosfera (links)
Alexandre Pomar > Berardo/CCB - ultimato? > Museu Colecção Berardo - documentos
> Primeira visita > No interior do CCB

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Quinta-feira, Junho 21, 2007

MUSEU BERARDO



Inaugura em Lisboa o Museu Berardo, na próxima 2ª feira, 25 de Junho, com
entrada livre
non stop durante 24 horas (v. programação no link do museu).
O momento é festivo. Procuraremos demonstrar, em breve, porque é que este
é um passo hstórico para Portugal e para
a internacionalização cultural do país.

Objecto/Escultura > Joana Vasconcelos (n. 1971), Portugal
>
Nectar, 2006, col. Museu Berardo
[R]

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Domingo, Junho 10, 2007

[citação 23]
A MEMÓRIA



A memória da maior parte dos homens é um cemitério
abandonado,
onde jazem sem honras, mortos que eles deixaram
de amar. Toda a
dor prolongada insulta o seu esquecimento.

Citação > Marguerite Yourcenar (19o3-1987), França

> in
Memórias de Adriano, ed. Ulisseia, Lisboa, 1981

Pintura > João Queiroz (n.1957), Portugal
> Sem Título, 2004
/Sem Título, 2004 (fonte: Gal. Porta 33, Funchal)

> Citação dedicada a Maria Clementina Diniz, nascida a 10 de Junho 1940.
[P]/[R]

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Quinta-feira, Junho 07, 2007

GÉRARD



Apresentação de fotografias inéditas de Gérard Castello-Lopes, na Galeria
Fernando Santos
, simultâneamente no Porto e em Lisboa, até 31 Julho 2007.
Este conjunto de imagens recentes (2005-2006) traz-nos algumas das constantes
do olhar do fotógrafo - as ambiguidades de planos e estruturas que se conjugam e
sobrepõem, a límpida geometria dos objectos no espaço, as texturas e brilhos das
superfícies - mas Gérard detém-se agora em registos de ruínas, marcas da luz e
do tempo, presenças e ausências, deixando entrever uma inquieta melancolia.

Fotografia > Gérard Castello-Lopes (n. 1925), Portugal
>
Valência, 2006, col. Galeria Fernando Santos.
[R]

Pesquisar Gérard Castello-Lopes
> "Gérard Castello-Lopes expõe em Lisboa e no Porto"
> "O David de Gérard Castello-Lopes"
> "Pensar fotograficamente" /
Arte Photographica
> Fundação PLMJ

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Sábado, Junho 02, 2007



[PF #8] - Obsessão.
Viva! Haja quem se atreva a lembrar decisões "funestas" do sr. ex-primeiro-ministro
Cavaco Silva. E foram mil, as suas funestas decisões! Parabéns, António Figueira,
por lembrar uma delas, a saber, a atribuição à igreja católica de um canal de televisão,
no início da década de 1990. Não deixa de ser um atrevimento lembrar tal decisão,
num país em que os orgãos de informação veneram deslumbradamente a faraónica
figura do actual PR, aquele que outrora "não lia jornais". Entretanto, à conta da
omissão respeitosa que os media nos impõem no que se refere às múltiplas decisões
funestas tomadas no tempo das vacas gordas da então CEE, o sr. Presidente
prossegue, altaneiro, na sua incólume e obsessiva caminhada para um segundo
mandato no Palácio de Belém. Ou para um terceiro, se o houver. Uma verdadeira
obsessão!

> Adaptado de um comentário meu no post Um peso, uma medida, em Cinco Dias [PF]

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Sexta-feira, Junho 01, 2007

[citação 22]
SE FOSTE CRIANÇA



Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz.
Citação > Ruy Belo (1933-1978), Portugal
> in Homem de palavra(s), ed. Presença, Lisboa, 1978
(excerto do poema "Algumas proposições com crianças")

Fotografia > Duarte Belo (n. 1968), Portugal
> in Ruy Belo - Coisas de Silêncio, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

> Pesquisar Ruy Belo
www.astormentas.com/ruybelo.htm
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/poemasemana/11/01.html

> Pesquisar Duarte Belo
www.duartebelo.com
http://fundacao-plmj.com/detalhe.php?aID=1294#showDetail

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Quinta-feira, Maio 24, 2007

A CIDADE DAS MULHERES



Nome feliz inspirado na Cité des Dames (Christine de Pisan, 1363-1430) e muito
oportuno, dada a relevância das cidades no mundo contemporâneo e o crescente
protagonismo das mulheres na vida pública e intelectual.
Ao longo deste mês de Maio Cristina L Duarte, que felicitamos, vem assinalando
o primeiro aniversário do seu blogue com posts diários. Aqui fica um contributo do
Ultraperiférico, com estas questões:
A tendência paritária homem/mulher é sobretudo um instrumento de
equidade e de justiça soci
al, em rotura com o passado dominado por
homens, ou poderá constituir uma revolução civilizacional?

Dito de outro modo: Um maior contributo das mulheres na vida pública
pode transformar o mundo, torná-lo melhor?
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Fotografia > Hans Bellmer (1902-1975), Alemanha/França
> La Poupée, c. 1935 (fonte: Dolls of Hans Bellmer)
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Quinta-feira, Maio 17, 2007

[citação 21]
E OS BOS FILLOS DO LUSO



e os bos fillos do Luso,
e os fortes irmáns,
nun só nó, fortemente,
os dous constrinxirás;
tal é a semellanza sonorosa
do garrido falar!

Si... dos fillos do Luso,
que apartados están
por real estulticia
da gloriosa nai,
o pastor, bo e forte,
algún día serás
que a tribu vagarosa
ao deixado clan,
o descarriado gando
que agora errando está,
ao redil antigo
gloriosa volverás.

Citação > Eduardo Pondal (1835-1917), Galiza

> in Poesía, ed. Edicións Xerais de Galicia, 2003.

17 de Maio de 1863 é a data da publicação de "Cantares Gallegos", de Rosalía de

Castro (1835-1885), considerada a primeira obra literária posterior aos cancioneiros
medievais que recupera para a língua galega a condição de língua escrita, no contexto
do renascimento cultural ocorrido na Galiza na segunda metade do séc. XIX.
Um
século depois, em 1963, a Real Academia Galega homenageou Rosalía de Castro,
e instituiu o dia 17 de Maio como o Dia das Letras Galegas, com o objectivo
de
homenagear todos os anos diferentes autores galegos que, pela importância da sua
obra, contribuiram para o processo de recuperação da consciência nacional galega.
Em 1965 é a vez de Eduardo Pondal, defensor do federalismo ibérico,
que incluía a
recuperação da irmandade histórica com Portugal.
[Adenda] Ver também Coroas de Pinho.
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Pintura > José Dominguez Alvarez (1906-1942], Portugal/Galiza
> Paisagem com camponesa, s/l, s/d (fonte iconográfica: Cabral Moncada Leilões)
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Pesquisar Dominguez Alvarez (links):
> Centro de Arte Moderna/FCG

> Artecapital
> Gotas d'Água

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Quinta-feira, Maio 10, 2007

[citação 20]
VIVO EM LISBOA



Vivo em Lisboa como se vivesse no fim do mundo, ou num
lugar que reunisse vestígios de toda a Europa. A cada esquina
encontro reminiscências doutras cidades, doutros encontros,
doutras viagens.

Aqui, ainda é possível inventar uma história e vivê-la. Ou ficar
assim, parado, a olhar o rio e fingir que o Tempo e a Europa
não existem - e Lisboa, se calhar, também não.

Citação > Al Berto (1948-1997), Portugal
> in
O Anjo Mudo, ed. Assírio & Alvim, Lisboa, 2000

Fotografia >
Vítor Palla (1922-2006), Portugal
>
Lisboa, 1989, col. Fundação PLMJ
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