domingo, janeiro 27, 2008

O ALVO
(ou a ética e a táctica na política)




A atenção que este blogue dedica aos chamados assuntos da ordem do dia é, por
convicção, tão reduzida quanto possível. Estamos a falar daqueles assuntos que,
por determinação dos nossos media, adquirem o estatuto de actualidade.
Mas quando, de repente, se torna indispensável noticiar e debater as reais
possibilidades de Portugal ser alvo de acções terroristas por parte do
fundamentalismo islâmico, não podemos deixar de questionar por que motivo
é este o momento de quebrar o tabu. Claro, o facto de Espanha ter dado o alerta,
parece ter-nos acordado. De súbito, deixámos de ser incólumes.

No entanto, não é de agora que Portugal passou a ser um alvo potencial. Desde
o 11 de Setembro que esse risco se tornou claro. Não se deu por isso, à conta da
velha ideia de que somos insignificantes no contexto europeu, sem dimensão nem
visibilidade internacionais. Subestima-se sistematicamente o prestígio do país,
ignora-se que para o mundo árabe o nosso estatuto histórico ainda não foi
esquecido, do mesmo modo que, sobretudo no sul do território português, as
ancestrais tradições mouriscas permanecem vivas muitos séculos depois da
cristianização total do território e da consequente expulsão dos mouros, aliás
posteriormente perseguidos pelos "cruzados" portugueses no norte de África.

Por outro lado, a exposição mediática a que Durão Barroso, então primeiro ministro,
sujeitou o país, quando da nefasta cimeira dos Açores de 2003, não deixou margem
para dúvidas: ficámos na lista dos alvos preferenciais. Mas a "cruzada" de Barroso
era outra: tinha como alvo as suas manifestas ambições de carreira política externa,
aposta ganha pelo próprio, independentemente das qualidades que possam ser-lhe
reconhecidas no cargo que ocupa na União Europeia. Certamente imbuido da tal
ideia pequena de que Portugal é um país pequeno, Barroso desvalorizou riscos e responsabilidades, para atingir o seu alvo. Esperemos agora que o fundamentalismo
islâmico não atinja o seu.

Ver no Ultraperiférico estes posts antigos, e este mais recente.

Fotografia (reedição) > Foto Camacho (Portugal)
> Açoteias, Olhão, 1966 (foto © FC/CRO).
[R]

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