domingo, dezembro 03, 2006

A MOLDURA



A propósito de um post anterior em que citámos Wassily Kandinsky e referimos
as origens do Abstraccionismo, Mário Pires deixou este comentário:

mário escreveu...
A arte libertou-se da figuração, mas ainda não se libertou da moldura, recuando
aos seus primórdios.
25 Novembro, 2006 18:21
Em resposta: a moldura é um objecto civilizacional, tanto metafórica como
historicamente. Para falarmos no papel do Abstraccionismo -- e faz sentido falar deste
"ismo" entre os outros "ismos" do século XX -- falamos de um tempo revolucionário
em que a matéria específica da pintura, os seus elementos essenciais dados pelas
tintas (cores, formas, texturas, linhas) se autonomizaram. Foi o momento em que
a pintura passou a falar somente de si própria, servindo-se apenas destes elementos
visuais específicos da linguagem pictórica, sem ter que recorrer à representação do
mundo visível. O mesmo aconteceria posteriormente com outras linguagens
artísticas, mas nisto a pintura terá sido pioneira. Quanto a recuar aos primórdios,
recordemos que há três décadas atrás muitos artistas plásticos procuravam unir a
arte e a vida, abolindo os suportes tradicionais e a próprio acto de pintar. Desse
tempo de actividade experimental e performativa restam hoje os registos fotográficos
e videográficos que, como sabemos, também já são suportes tradicionais.
E pronto, cá regressamos à moldura.

Pintura > Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918)
> Sem Título (composição abstracta), c.1913, col. Centro de Arte Moderna/Fundação
Calouste Gulbenkian, Lisboa.

Esta composição abstracta realizada em Paris por Amadeo de Souza-Cardoso,
c. 1913, no mesmo ano em que se presume que Kandinsky pintou a sua primeira
Aquarelle Abstraite, mostra até que ponto o pintor português foi um dos
protagonistas das vanguardas do início do século XX. De facto, a par de Kandinsky
e de outros artistas europeus, devemos considerar o ecléctico experimentalista
Amadeo um dos iniciadores do Abstraccionismo.
[R]

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11 Comentários:

Blogger sub rosa escreveu...

Tenho estado a ler esse post e o que dele é derivado como se contemplasse uma forma artística em uma exposição, ou em uma forma de exposição.

Bastante insegura, ainda, digo que me incomoda um tanto, esta sinédoque, a metonímia.
A moldura ("objeto civilizacional metaforia e historicamente") assim considerada, acredito que elide a sinédoque, pois a meu ver só se aplica em relação à Pintura.
Não vejo isso acontecer com outras formas de arte.
Todas as demais a dispensam. Ter ou não moldura (se aqui significa suporte, do mod) não a leva para um retrocesso ou uma vanguarda.

Já as cores, os sons, inflexões, trangressões isto sim, possivelmente as tornem datadas.

Um belo post que se *se sustém* por si mesmo. É pura Estética
E que , desculpe, mas podia ser um post autônomo e mais abrangente, tal a quantidade de ângulos que contempla.

Desculpem, e obrigada pelo ensejo de poder lê-lo e comentá-lo

Abraços
Meg

05 dezembro, 2006 12:06  
Anonymous Vreemde Vogel escreveu...

Na grande exposição da obra de Amadeo de Souza-Cardoso que actualmente está a ser mostrada na Fundação Calouste Gulbenkian, é bem notório o que Roteia refere neste post sobre o artista. Quanto à moldura, concordo com Sub rosa, no sentido em que apenas se aplica em relação à Pintura. Nas outras forma de arte visual, escultura e arquitectura, a moldura será o meio envolvente.

05 dezembro, 2006 15:33  
Anonymous BaLa escreveu...

Falta referir a fotografia.Neste caso, as constatações de sub rosa e roteia aplicam-se tanto como à pintura? Como leiga, pergunto, apenas.
Quanto ao comentário de vreemde vogel, creio que em qualquer arte visual o meio envolvente pode constituir a moldura,havendo a intenção do artista ou do comissário de uma exposição.

05 dezembro, 2006 16:19  
Anonymous Mário escreveu...

A questão da moldura tem a ver com a sua conveniência, mas também com a sua limitação. Todas as artes visuais que se visionam em duas dimensões sofrem com as molduras. Um fresco é limitado pelas dimensões da parede onde é pintado, mas não tem uma moldura definida. Uma iconostase funciona como uma hierarquização de santos, que embora sejam peças pequenas são para ser vistas como um todo majestoso.

05 dezembro, 2006 16:27  
Anonymous Carla Soares escreveu...

Passei pela primeira vez aqui neste blog e pretendo voltar, pois gostei muito do que aqui encontrei. Os meus parabéns pelo conteúdo do blog.

06 dezembro, 2006 00:34  
Anonymous Roteia escreveu...

Meg:
Antes de mais, grato pelo seu comentário.
Compreendo bem as suas dúvidas, visto que o post não diz tudo, mas felizmente temos esta caixinha de diálogo onde podemos explorar ou completar algumas ideias.

Referindo-me à citação de Mário no post, creio que a ausência de moldura talvez deva ser considerada apenas na arte da pré-história. Quando afirmei que a "moldura é um objecto civilizacional, tanto metafórica como historicamente" eu quis dizer que a moldura que envolve as obras de arte, nomeadamente pinturas, não é apenas um objecto de delimitação da obra mas também o território que envolve a obra. E se este território se pode estender a outras linguagens artísticas, desde a arquitectura ao teatro (o palco é uma caixa aberta rodeada por uma moldura gigante), ou ainda num sentido mais lato a todos os elementos exteriores à obra, também podemos considerar as circunstâncias "históricas" de muito do experimentalismo artístico em várias épocas ter pretendido libertar-se do espartilho da moldura. Cito-lhe a este propósito Miguel Torga: "Não há grandeza possível emoldurada num pequeno caixilho territorial".

Quanto ao retrocesso ou à vanguarda, concordo consigo, evidentemente que não depende da existência física de uma moldura. Note no entanto que muitos dos vanguardistas do século xx procuraram libertar-se dela, pelo menos conceptualmente.

Abraços.

06 dezembro, 2006 12:09  
Blogger Luisa escreveu...

Upps... enganei-me na caixa de comentários. Queria pô-lo aqui, foi para a anterior:
http://ultraperiferico.blogspot.com/2006/11/citao-15-as-caractersticas-das-cores.html
Um abraço

07 dezembro, 2006 21:31  
Blogger bettips escreveu...

Uma imagem perfeita da grandeza do nosso artista, universal! Abç

07 dezembro, 2006 22:54  
Blogger Luisa escreveu...

Há diversos pontos abordados aqui, em torno do tema da moldura que me parecem muito interessantes. Não há dúvida que a moldura, pelo menos numa concepção tradicional, poderá ter um "privilégio" na 'representação' bi-dimensional, mas se em vez de considerarmos apenas a pintura que é, e talvez discutivelmente, a arte visual mais ponderada a diversos níveis, não esquecermos do desenho, da gravura, da fotografia, da tapeçaria, da azulejaria, etc, ou de outros modos mais inter-penetrativos da arte visual, talvez essa questão se ponha igualmente, mas em termos diferenciados.
Como referiram, a moldura é um objecto civilizacional. Mas não tenho a certeza que não o fosse só depois a arte pré-histórica. Julgo que terá sido mais tarde, mesmo depois dos frescos, e do início da descoberta do óleo e do uso da tábua. E se o foi antes, a moldura, ou a delimitação do espaço, faria parte integrante do ‘interior’, como intencionalidade do artista ao criar, ou seria uma ‘imposição’ do encomendador (por exemplo para uma parede ou um retábulo de igreja). Mesmo no renascimento, a célebre frase de Alberti sobre a pintura como janela para o mundo, é em si, uma delimitação, um emolduramento, um enquadramento, mas é também simultaneamente uma ligação entre o que está dentro e o que está fora. Outro exemplo são os trompe- d’oeil. Mais uma vez há a moldura, enquanto circunscrição primordial.
A pintura, ou a arte plástica contemporânea tende a romper muito mais com essa delimitação; romper como intenção e como realização. Quantas obras se estendem para lá do seu suporte físico?! (pelo menos no propósito do artista)
E por outro lado, quantas vezes, somos nós, proprietários ou expositores das obras a demarcar ainda mais aquilo que o artista quis delimitar? Por exemplo, num desenho que está ‘delimitado’ com quatro linhas desenhadas, tendemos a considerar que o desenho acaba ali, nas 4 linhas, mas se o suporte é maior, muito maior, quem nos diz que não foi a intenção do autor deixar o resto do suporte em branco?
Não será a moldura, e a moldura enquanto objecto ‘complementar’ uma ideia essencialmente aristocrática, e ainda mais, burguesa, de valorização de algo (a obra de arte) a que não se dava (dá) assim tanto valor?
E nas outras artes tridimensionais ou espaciais? O conceito de ‘moldura’ terá um significado algo distinto, mas não deixa de haver um limite entre a obra propriamente dita e o que a envolve. Não é por acaso que o arquitecto necessita de ver o lugar onde vai projectar: a continuidade/delimitação/integração. E a escultura? os espaços negativos, os espaços “vazios” (e lembremo-nos de Henry Moore), e a sua privilegiada integração em zonas ao ar livre; mas nestas, os pedestais também não são para além de suporte, delimitação?
E como já vai longuíssimo este comentário, só mais uma achega. Será que na arte figurativa o nosso olhar tende para um centro, uma ‘narrativa’, e na arte não-figurativa a ‘liberdade’ do olhar não é tão condicionada?
Muito obrigada por esta discussão… e mais haveria a conversar…

(desculpem a repetição do comentário)

07 dezembro, 2006 23:52  
Anonymous Roteia escreveu...

Luísa:
Grato pelo seu contributo neste diálogo em torno da moldura. O seu comentário tem pano para mangas. Até já.

08 dezembro, 2006 11:47  
Blogger aldina escreveu...

Metaforicamente falando, mãe, pai e dois irmãos são a minha moldura, por exemplo, abstraccionismos à parte :-D

Obrigada pelo interesse da matéria debatida!

Até sempre

13 dezembro, 2006 17:22  

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