segunda-feira, novembro 02, 2009

O MINISTÉRIO DE CANAVILHAS (2)



Nem de propósito, o blog de Alexandre Pomar acaba de publicar um texto de Gabriela Canavilhas, que aqui se reproduz na íntegra. Vale a pena.

REFLEXÃO SOBRE CONCEITOS CULTURAIS

A definição de cultura é uma tarefa quase impossível… "esgota-se a definir o seu próprio objecto”… Cultura funde-se com civilização e, como tal, cultura significa, antropologicamente, um todo complexo que inclui a arte, a lei, os usos e costumes, o conhecimento, os credos, a moral, e todas as expressões civilizacionais da sociedade que expressem o modo de vida dos seus membros.

No sentido lato, a cultura abarca, portanto, na sua definição, todas as manifestações dos indivíduos e do colectivo que espelham o modo de vida da sociedade organizada e que constituem a sua marca identitária - a vivência na esfera pública e privada, as expressões urbanas e rurais, a alimentação, a agricultura, a economia, a organização no trabalho, as relações sociais e familiares, a educação e todas as formas de exercício do lazer e do entretenimento. Todas estas manifestações sociais são sinais culturais, sociologicamente, e incluem também aquelas às quais a palavra cultura está academicamente associada – a literacia, a transmissão do saber e o conhecimento intelectual e artístico.

A conotação cultura/saber remonta a desde que o homem assumiu a sua dimensão intelectual e reconheceu no conhecimento a alavanca do desenvolvimento civilizacional. Quanto à associação cultura/sociedade, esta é produto das modernas antropologia e sociologia, nascidas em finais do século xix e que sedimentam a abrangência da concepção de cultura ao espectro sociológico. Em qualquer dela, porém, é inequívoca a sua transversalidade, a sua correlação inter-relacional e o sentido universal do conceito - aquele que define o homem na sua forma de estar no mundo e em tudo o que transporta com ele, de geração em geração.

Então, o que importa aqui reflectir? Sobre o perigo da generalização dos conceitos, da confusão da aplicação da palavra cultura, umas vezes num sentido, outros noutro, indiscriminadamente, e sobretudo sobre a banalização do adjectivo “cultural”, cuja consequência é a indefinição objectiva do foco que importa relevar quando se fala em estratégias de desenvolvimento social através da cultura.

No sentido intrínseco, cultura são as manifestações civilizacionais que constroem o acervo estrutural do pensamento, que se reflectem na consolidação de uma sociedade esclarecida e que são a alavanca para o desenvolvimento da sensibilidade, do saber e do conhecimento, condições estas indispensáveis para o avanço das mentalidades e, por consequência, para o avanço para uma sociedade melhor.

Sendo a cultura a preservação e a criação de valores, como e quem determina o que são os valores? A natureza do objecto de arte e de culto é a sua permanência e durabilidade – a sua imortalidade advém da sua revisitação permanente ao longo dos tempos e do reconhecimento que lhes é dado da sua função de alicerces para novas criações. Afinal, em última análise, são os próprios destinatários que se encarregam de o determinar.

Nos tempos de hoje, a “alta cultura” (assim chamada por ter tido origem nas classes então dominantes – o clero, a nobreza, a aristocracia, os intelectuais), por oposição à denominada “baixa cultura”, oriunda do povo com transmissão oral, são ambas património cultural intrínseco reconhecível e indissociável, e sabemos bem quanto ambas devem uma à outra, porque se alimentaram reciprocamente através dos séculos. Entretanto, surge um 3º género cultural - um contributo da sociedade ocidental do século xx, aquela que inventou o entretenimento de massas, o showbiz mediático e o fast-food intelectual, que é aquele que introduz nesta equação novas inquietações. Este novo género cultural, chamado cultura recreativa de consumo de massas, essencialmente urbano, maioritariamente trivial e mediano, de satisfação imediata, que ocupa os horários nobres das televisões e as páginas “culturais “ dos jornais e revistas nacionais, é constituído pelo maior denominador comum de entre as expressões culturais da sociedade do nosso tempo e tende a ocupar o espaço de fruição cultural, em todas as faixas etárias, colocando a fasquia da exigência do receptor muito abaixo daquela que a tradição foi sabendo preservar e do que a criação intelectual conseguiu atingir.

A contaminação desta estética junto das populações é muito rápida e facilmente se introduz nos hábitos e na linguagem comunicacional. A maioria destas formas de entretenimento cultural são subprodutos de matrizes intemporais, mas a facilitação, quer da sua prática, quer da sua fruição, obriga a aligeirar a forma. Desta maneira, muitos mais a praticam e a consomem. Será esta uma consequência inevitável da democratização da cultura? Ou não será antes o caminho da dissolução da cultura no entretenimento?

E o dilema que a gestão cultural pública enfrenta é este: como determinar quais os valores que importa proteger, apoiar, financiar, se são nestes últimos que a maioria da população se revê? Pode-se e deve-se fazer uma “política de gosto”? Pode o decisor político orientar esteticamente (por via de financiamento) os caminhos do desenvolvimento cultural?

A justificação para o financiamento e subvenção da actividade cultural e artística pelo governo/ autarquias assenta no princípio de que as artes e cultura são “bens meritórios”, que resultam em benefícios sociais, e que por isso, devem ser tutelados ou apoiados pelo sector público para garantir a sua permanência. Como “bens meritórios”, as artes e cultura não têm um valor de mercado consentâneo com o seu valor intrínseco, na medida que nem todos os indivíduos avaliam correctamente os benefícios privados e sociais que deles decorrem (como na arte conceptual, plataforma de abertura às interrogações e que questionam permanentemente o adquirido) - nuns casos não participando nos seus custos mesmo que acessíveis, noutros por manifesta impossibilidade prática dado o seu elevado preço (como na ópera ou no cinema de autor ou ainda, como no caso açoriano, nos custos de descentralização destas e de outras formas de arte). Compete assim aos decisores públicos desenvolverem mecanismos que assegurem a difusão o mais alargada possível de bens e serviços meritórios, reconhecendo neles papel primordial na formação e valorização pessoal do indivíduo. Aquilo que beneficia a sociedade deixa de pertencer ao indivíduo – pertence a todos – na medida em que afecta e beneficia a comunidade. Nesse sentido, é justo que o colectivo (estado) financie aquilo que beneficia o colectivo (comunidade).

Portanto, o propósito múltiplo de salvaguardar a identidade nacional e regional, de colmatar as deficiências da economia de mercado no sector das artes e de garantir igualdade de oportunidade de acesso à vida cultural por parte de todos os cidadãos, levou a que o governo/autarquias passassem a cobrir desde as chamadas “alta e baixa culturas”, até à cultura de massas.

E é neste ponto que volto às interrogações: quando tudo está incluído na mesma categoria como cultura – dos clássicos intemporais (eruditos ou tradicionais) ao rock e pop-rock mediáticos e ao cançonetismo popular, passando pelas orquestras ligeiras e cantores em play-back, do folclore para turistas às recriações históricas de rua, das expressões genuínas das nossas tradições aos desfiles etnográfico-turístico-religiosos de entretenimento colectivo, dos festivais de verão dedicados à juventude e das práticas recreativas amadoras às iniciativas profissionais institucionais - sempre com a comunicação social generalista a incluir tudo no mesmo pacote nos seus espaços culturais - , como fazer distinguir junto dos cidadãos o que é relevante para a percepção de uma estratégia de desenvolvimento cultural? E mais importante ainda, como fazer passar a mensagem aos destinatários de que nem tudo são “bens meritórios”, logo, subvencionáveis pelo erário público? E o derradeiro desafio: neste quadro, como explicar aos agentes culturais no sentido lato estas diferenças?

Em qualquer caso, a cultura vive da articulação entre o passado e o presente, entre o individual e o universal, entre a herança e o novo legado. Se é certo que julgo haver respostas para estas interrogações, deixo-as contudo aqui para reflexão, na certeza porém de que se há região no país onde estas questões importam, é aqui, nos Açores, onde os açorianos, historicamente, têm sabido encontrar sábias formas de contornar contaminações e de evitar atalhos para prosseguirem o seu caminho cultural em direcção ao futuro. que assim continue. apesar dos indícios."

Gabriela Canavilhas.
 Setembro de 2009. Texto publicado em alguns jornais dos Açores.

(parágrafo sublinhado conforme blog de AP)

Escultura > Rui Chafes (n.1966), Portugal
> The world becomes silent, 2004, Jardim da Sereia, Coimbra.
[R]

4 Comentários:

Anonymous propranolol escreveu...

Pois é, Roteia, nem de propósito. Parece que a ministra está a responder ao teu último post.
Este texto de Gabriela Canavilhas, apesar de alguns erros de português e de desnecessárias repetições de conteúdo, é um texto importante que toca no ponto, sem dúvida, tal como o teu post anterior. Resta saber de que margem de manobra dispõe, enquanto ministra, para pôr em prática as ideias que exprime.

02 novembro, 2009 21:29  
Anonymous Roteia escreveu...

Sim, o texto tem alguns problemas de construção, mas pouco importa, é um texto esclarecedor. Assim passamos a saber alguma coisa do que vai na cabeça da nova ministra, e compreendemos porque foi convidada para o cargo.
Como escreveu Alexandre Pomar: "A ministra pensa".

02 novembro, 2009 23:09  
Anonymous Vremde Vogel escreveu...

Se a ministra tivesse por exemplo partido o salto do sapato numa conferência de imprensa ou coisa assim, ainda vá que não vá, aí teríamos manchetes em toda a comunicação social e resmas de posts na blogosfera e caixas de comentários congestionadas como o trânsito em hora de ponta. Agora isto? Em Portugal ninguém quer saber de cultura ou de arte, não sejam ingénuos! E na blogosfera ainda menos.

03 novembro, 2009 23:06  
Blogger bettips escreveu...

Não sei não - uma no cravo outra ...na fechadura ... O Ministério da Cultura é como um elefante numa loja de louças, corre o risco de escaqueirar o cristal - é palavra a mais para tão pequeno orçamento!

09 novembro, 2009 22:31  

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