domingo, julho 12, 2009

BRANCO SUJO (2)


E agora uma parábola, em resposta ao comentário de José Quintas no post anterior:

Certo crítico diz ao grande artista: "esse desenho é incompreensível".
Grande artista: "vossa excelência compreende chinês?"
Resposta: "não."
Grande artista: "e no entanto, há quem compreenda."

Desenho/Fotografia > Pablo Picasso (1881-1973), Espanha/França
> Gjon Mili (1904-1984), Albânia/EUA
> Picasso desenhando com luz, Vallauris, França, 1949
[R]

7 Comentários:

Blogger josé quintas escreveu...

as parábolas têm esses poderes: podem deixar-nos a sorrir diante do monitor, ou com os olhos em bico ao levantar mais dúvidas (ou ambos, no meu caso).

esclarece p.f. o que pode ter sido incompreensível: algo no comentário ou o desenho? ambos?

12 julho, 2009 23:46  
Anonymous Roteia escreveu...

Não josé, nem no teu comentário nem no teu desenho, mas na minha resposta. E não para ti, creio. No entanto, para quem nos lê pode tornar-se incompreensível. Exemplo: "há textos que não se apagam".

Esta parábola antiga ocorreu-me a propósito do enigma contido nos sentidos (ou linguagens) que não dominamos. Ou nos dados que apenas pressentimos.

Acrescento um conselho de poeta (Rilke), que tomo para mim próprio, cito de memória: "não procures entender pelo sentido, mas pelo som".

13 julho, 2009 00:49  
Anonymous Roteia escreveu...

Corrijo a frase do início:

de "em resposta ao comentário de José Quintas no post anterior"

para "a propósito de uma troca de comentários no post anterior"

assim fica claro?

13 julho, 2009 01:14  
Blogger josé quintas escreveu...

sim (já agora, também corrigi o que te levou a: «há textos que não se apagam»).
quanto à posição de Rilke, parece-me válida nalgumas circunstâncias, sobretudo quando o sentido oprime por demasiado evidente. noutras, em que o absurdo impera (como agora), é forçoso que alguém tente fazer, criar sentidos, de preferência novos.

não vem muito ao caso, mas lembrei-me agora dos tempos de estudante, em que valorizava mesmo muito Dada e o Futurismo, e também a atitude «stop making sense» dos Talking Heads, extensível a outras bandas ianques do início dos 80.
hoje em dia, creio haver necessidade do oposto.
isto quanto a ideias.

em termos de objectos, por assim dizer, artísticos, é óptimo quando suscitam leituras diversas, até contraditórias.
exemplificando com áreas multidisciplinares como o teatro ou o cinema, gosto de ficar com a boca aberta quando as palavras disparam num sentido, a música noutro, as imagens noutro ainda, sem que o todo deixe de funcionar. a uniformidade, quase tudo o que começa por «uni», aborrece.

(queria chegar a qualquer lado com isto, mas perdi-me no caminho:)

14 julho, 2009 00:49  
Anonymous Roteia escreveu...

Muito bem. Reli com gosto o texto reaparecido.
Agora sobre Rilke: citei-o um pouco fora de contexto, é certo (Rilke disse aquilo a propósito do entendimento da poesia), mas porque me lembrei que também um diálogo enigmático em prosa pode mais facilmente ser apreendido pelo som do que pelo sentido.
Quanto ao resto, sendo que o enigma também pode gerar novos sentidos, penso como tu, que é preciso ideias transformadoras, fora do beco sem saída para o qual nos deixámos conduzir. E pouco mais importa.

14 julho, 2009 02:25  
Blogger Kruzes Kanhoto escreveu...

Pois. Mas certos riscos que não há "chinês" que os perceba...

25 julho, 2009 16:42  
Blogger ivone escreveu...

Um dia Picasso passava por um controlo de fronteira (aeroporto?) com o seu quadro "Guernica".

Os guardas, ao verem o quadro, terão perguntado: - Foi você que fez isso?

Picasso respondeu: - Não, foram vocês !

19 agosto, 2009 23:46  

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