segunda-feira, abril 09, 2007

VÍCIO



Sou fumador. Fumar prejudica gravemente a minha saúde e, em certos casos, pode
prejudicar a saúde dos que me rodeiam. Fumar é um vício privado, de cujos perigos
sou repetidamente advertido em cada maço de cigarros e do qual sou responsável
directa e individualmente: se eu consigo ultrapassar este vício que tanto me
atormenta, ou se eu continuo a fumar apesar das advertências, apesar do mau-estar
que por vezes suplanta o prazer e apesar dos prejuízos na carteira, este é um assunto
da minha esfera íntima, não diz respeito a governantes. Considero no entanto
correctos alguns condicionamentos legais destinados a proteger os não fumadores,
desde que observados os meus direitos individuais, que tanto podem incluir o simples
prazer de fumar como possíveis compulsões suicidárias.

O parlamento português prepara-se para aprovar um pacote legislativo que fará de
mim, a cada hora que passa, um prevaricador, sob pretexto de querer proteger
a minha saúde e, sobretudo, a saúde dos que não fumam - aqueles a quem chamam
fumadores passivos. Fumar em lugares públicos, numerosos e previamente
tipificados, isto é, satisfazer o meu vício na presença de pessoas bem comportadas,
vai ser proibido e punido pelas leis do meu país. Só ainda não compreendi bem, se
querem empurrar-me para a santidade ou se querem que eu me sinta um autêntico
criminoso. Do que não restam dúvidas é que há quem pretenda transformar o
tabagismo no paradigma de todos os males, nesta sociedade de chaminés venenosas
e de tubos de escape asfixiantes, uma sociedade de indústrias nocivas na qual todos
somos realmente fumadores involuntários e snifadores passivos.

O anti-tabagismo fundamentalista, gerado pelas mentalidades puritanas da América
e pela rigidez hipocondríaca de certas mentalidades do centro da Europa, chegou em
força aos países latinos de tradição menos preconceituosa, tornando-se também entre
nós uma moda. Pressupõe-se que a perseguição aos fumadores irá reduzir os
problemas do mundo e tornar as sociedades mais saudáveis e menos perigosas.
Porém, sabemos que isto não é assim, sabemos que o que está em causa tem
motivações economicistas (nos sistemas de saúde e seguros, por exemplo). Sabemos
também que os problemas do mundo, no que diz respeito à qualidade do ar que
respiramos e às ameaças ao equilíbrio planetário, são de facto graves, mas que a responsabilidade por esta situação cabe sobretudo aos países ditos avançados onde,
a par dos elevados índices de poluição, o anti-tabagismo é frequentemente mais
feroz.

Políticos e legisladores servem-se da perseguição aos fumadores como substituto da
sua incapacidade de desmantelar indústrias poluidoras? Ou, indo mais longe, será
que o tabaco é o bode expiatório conveniente para disfarçar a falta de coragem
política no combate às verdadeiras causas da poluição ambiental? Será que atacar o
vício privado de quem fuma não passa de um sintoma do velho vício público de
mostrar quem manda? Não será isto um abuso de poder disfarçado de autoridade
democrática? Será que, simultaneamente, se exorciza a má-consciência do sistema
economicista, no que respeita aos lucros gigantescos provenientes dos impostos
cobrados aos fumadores por cada maço de cigarros? Ou será que tudo isto não passa
de um fenómeno de ilusionismo asséptico, por detrás da tentação apocalíptica de
continuar a lucrar até à exaustão poluindo rios, oceanos, cidades e florestas?
[R]

Fotografia > Autor não identificado, Reino Unido (?)
> Smoking nuns, s/d, s/l.
[R]

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9 Comentários:

Anonymous Bala escreveu...

As doenças cardio-vasculares são a principal causa de morte em Portugal. Sabe-se, também que as principais causas de doença cardio-vascular se devem à alimentação - a população portuguesa está a ficar claramente obesa e carregadinha de colesterol. Além do tabaco, não seria prioritário fazer campanhas educativas da população quanto à alimentação e tomar medidas penalizadoras para alimentos de risco?
Eu sei, aí perdia-se um grupo-alvo como bode expiatório e generalizar-se-ia o grupo dos maus. Mas não há dúvida que do ponto de vista economicista seria altamente lucrativo!

11 abril, 2007 00:01  
Anonymous propranolol escreveu...

Concordo com Bala. E..."o tabaco mata, mas a vida também mata: ninguém lhe sobrevive".

11 abril, 2007 00:46  
Anonymous Personagem de Fricção escreveu...

E eu concordo com todos, Roteia, Bala e Propranolol (que raio de nome!). E também concordo com Oscar Wilde: "não custa nada deixar de fumar. Eu próprio já deixei muitas vezes". Siga!

11 abril, 2007 00:54  
Blogger cj escreveu...

podem preparar-se para perder as liberdades individuais à medida que as sociedades "evoluem"...
não há volta a dar, a História diz-nos isso mesmo.

11 abril, 2007 16:23  
Anonymous L'Oiseau Rare escreveu...

As leis anti-tabaco pressupõem que os governantes se preocupam com a qualidade de vida dos cidadãos, o que é, no mínimo, insólito, para não dizer paradoxal, dado o panorama que todos conhecem. Senão, deveriam também refrear ou punir os grandes grupos económicos responsáveis pela destruição desenfreada do ambiente e, portanto, pela falta de qualidade de vida dos cidadãos. Palhaçadas.

12 abril, 2007 16:43  
Blogger bettips escreveu...

Ora aqui está uma "ave rara" que de rara não tem nada! É isso mesmo e tudo o mais que nos passa pela cabeça, a todos os que vêem o radicalismo do ocidente, mascarado de tantos títulos "anti".
Prop.: claro, ando por aqui há tempos por pensar assim. Humildemente, cultivo o meu campo, do outro lado da cultura. Básica. Agradecida pelo reconhecimento. Abçs

13 abril, 2007 00:52  
Anonymous Mister escreveu...

Há uns meses atrás apareceu na televisão, em cartazes, em postais (daqueles grátis), nas revistas, jornais e tudo o mais que poderia servir como suporte de propaganda anti-tabágica uma campanha que pretendia fazer crer que é aceitável arrotar, libertar flatulência, escarrar e coçar as partes genitais em público.

Diziam eles, ouviamos e viamos nós que "Feio, feio é fumar"...
Para além de ridícula, esta campanha fazia eco das "mentalidades puritanas da América" e de uma certa "rigidez hipocondríaca do centro da Europa..." que R fala no seu post.

Quando uma sociedade condena o tabaco, mas permite a venda de armas e envia jovens (saudáveis) para a guerra - interessa ponderar de facto - o que causa mais danos à sociedade?

17 abril, 2007 23:21  
Blogger animah escreveu...

eu não fumo e muitas vezes sou obrigado a fumar os cigarros alheios.
é favor não escamotear os riscos à saude dos fumadores passivos, que os há e não são poucos.
gases outros são bem mais rarefeitos e bem menos ofensivos (considerando a normal vida citadina).
no geral o tabaco é simplesmente um vicio egoista e se os fumadores tivessem o cuidado de não impôr o seu fumo a 3ºs, nenhuma medida limitadora seria de facto necessaria.

11 junho, 2007 02:49  
Anonymous Anónimo escreveu...

O melhor texto que já li até hoje sobre esta matéria. Dramático é saber que os indivíduos que, por carências de carácter monetário, não frequentando espaços públicos como restaurantes ou discotecas, não sentirão, em larga escala os efeitos da proibição do consumo de "produtos de tabaco" (como consta do aviso afixado nas máquinas automáticas de venda) e continuarão a comprar os seus maços e abrir os cordões às suas bolsas, pouco cheias por sinal, e a contribuir em cerca de 80% do valor dos maços de tabaco para um estado que, de resto, só segue este tipo de exemplos das sociedades ditas "avançadas" ou "desenvolvidas", quando existem aspectos bem mais importantes a ter como exemplo a aplicar no nosso país como por exemplo os conteúdos programáticos no sistema de educação ou a reestruturação do serviço nacional de saúde. Pergunto-me: onde estão a ser aplicados esses cerca de 80% sobre o valor de cada maço de tabaco?

11 outubro, 2007 01:41  

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