segunda-feira, abril 30, 2007

ICONOCLASTIA



Há uma longa caminhada a fazer para ultrapassar resistências ou dificuldades de
convívio com os nossos ícones culturais. Quase sempre e em quase todas as áreas,
aquilo ou aquele que brilha é, em Portugal, factor de divisão e polémica, muito para
lá da legitimidade crítica, como se os portugueses não soubessem unir-se em torno
dos seus próprios valores. Os exemplos abundam, mas para referir apenas a área
da música lembremo-nos dos casos de Amália, Carlos Paredes ou Zeca Afonso.
À grandeza e ao talento, em torno dos quais qualquer comunidade pode rever-se
com orgulho, reagem os portugueses com indiferença ou animosidade,
transformando factores de unidade em factores de divisão. E nada disto se refere
ao exercício da crítica, que entre nós é frequentemente tomado por maledicência.

O actual Presidente da República, Cavaco Silva, a quem cumpriria preservar os
símbolos colectivos do país, apresentou-se uma vez mais na comemoração oficial
do Dia da Liberdade, em dissonância com a Revolução dos Cravos. Diz ele, para já
renegando o cravo na lapela presidencial, que é preciso inovar o modelo das
cerimónias evocativas do 25 de Abril
.
Interroguemo-nos: Porque persiste o PR em "partidarizar" o cravo vermelho, se
este é o símbolo máximo de um acontecimento histórico, prévio à formação ou à
legalização dos partidos políticos? Se a permanência deste símbolo depende do seu reconhecimento por parte da maioria dos cidadãos do nosso país, como é o caso,
porquê reduzi-lo a emblema da Esquerda? Será que o PR não se revê no vermelho
pacífico de uma flor que se substituiu nas espingardas às balas e ao sangue que
todas as convulsões políticas deviam evitar?
[R]

Pintura > Anónimo (séc. XV), Portugal
>
Ecce Homo, c.1490, col. Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
[R]

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7 Comentários:

Anonymous Mário escreveu...

Provávelmente só daqui por uns anos, quando todos os protagonistas directos do evento já tiverem desaparecido é que se poderá avalizar, por agora as questões políticas mais comezinhas sobrepôem-se a tudo o resto como é da nossa tradição. José Afonso, para além do mais não primava por uma militância disciplinada e prevísivel (e ainda bem) pelo que nenhuma força política faz lobby por ele, embora o mais provável é que a riqueza das suas criações músicais e poéticas perdure muito para além do nosso século.

30 abril, 2007 10:00  
Blogger Ultraperiférico escreveu...

Mário:
Provávelmente, se as actuais hierarquias políticas não forem sabendo preservar a memória e o símbolo (ou estimular a sua recriação), o cravo vermelho perderá o valor poético e estético que ainda lhe resta, para se tornar um elemento folclórico ou meramente decorativo.
Quanto a Zeca Afonso, sendo certo o que diz, como compreender que o talento do cantor esteja sujeito a lobbys de forças políticas? Ou como compreender que seja a Galiza, mais do que Portugal, a mostrar pelo cantor o devido apreço?
> Roteia

30 abril, 2007 12:48  
Blogger paulo escreveu...

O Zeca Afonso fala de coisas que os "jovens" não querem (ignoram que precisam de) ouvir falar. Além disso cultiva uma linguagem alegórica. E depois vem rotulado de marxista (que seria, embora meio confusamente), coisa, que se ouviu dizer, tenebrosa. Confundem Marx com o estalinismo como quem confundisse Nietzsche com o nazismo. Quanto ao cravo, a mesma coisa. E sim, o cravo é património da esquerda. E o vermelho, sendo pacífico, não é inofensivo. A revolução portuguesa não foi ideologicamente neutra. Para o bem e para o mal, foi de esquerda e não de centro ou de direita. Ou de dentro. Lembrar isto é também preservar a memória.

30 abril, 2007 14:44  
Blogger Ultraperiférico escreveu...

Paulo:
Concordo, sobre Zeca Afonso e sobre os "jovens", digo eu cavaquistaneses (essa entidade de catequese que da liberdade só entende vagamente a ausência de regra).
Quanto ao cravo, penso que não é a mesma coisa. Eu estava lá, naquele dia, vi a magia e a emoção por todo o lado, posso garantir que a adesão ao cravo foi espontânea, que antes de ser ideologia foi acto vitalício (mesmo admitindo que a sua distribuição inicial pelos soldados não tenha sido ocasional). Todos tínhamos consciência que aquela flor era uma espécie de amuleto dos cidadãos de Lisboa contra a imprevisível reacção da ditadura. Todos nas ruas sentíamos que ninguém ousaria atacar-nos, assim indefesos, de flor ao peito. Depois, passado o perigo inicial, o cravo tornou-se um elemento festivo por todo o país, um sinal de libertação, vitória e paz. Só mais tarde o cravo viria a tornar-se um factor de divisão entre esquerda e direita. Mas antes disso já se tinha tornado património universal, já tinha dado nome, pela primeira vez, a uma revolução.
> Roteia

30 abril, 2007 23:28  
Anonymous Mário escreveu...

Roteia, acho que a simbologia do cravo corre perigo de apenas ser ligada à simbologia partidária, o que para quem se lembra do dia ou esteve mesmo presente não corresponde à verdade. Efectivamente a adesão aos cravos foi espontânea e um verdadeiro momento de poética do real como muito provávelmente não veremos mais (embora possamos sempre ter esperança), mas passados já tantos anos sobre esse momento, a patine que se vai formando quase só recebe contributos de quem o quer politizar negativamente.
Um criador tão genuino como José Afonso nunca se poderia acantonar em espartilhos burocráticos, infelizmente os politicos adoram espartilhos e espartilhar todos os outros também. Mas nós como cidadãos e apreciadores do autor bem que podíamos ajudar a aumentar o repositório de informação sobre ele no site da Associação José Afonso, que pode ser um bom ponto de partida para isso.

04 maio, 2007 11:39  
Anonymous Valério Guerra escreveu...

Ontem, Talvez Amanhã!


Subitamente, do ar revolto
passa um relógio que fala,
uma águia sem cauda,
um leão a bater a pala;

passo eu, muito mais jovem,
um gato a cavalo num cão,
cravos nuvens que chovem
e um poeta ermitão

que trás rimas de desespero,
faúlhas tiradas ao logro
de um quintal sem esmero
onde enterram palavras de fogo.

Subitamente,
oxalá multidão,
anónima, irreverente,
virá revolução.

07 maio, 2007 12:23  
Blogger linfoma_a-escrota escreveu...

porke o cavaco é um monte de merda,
culpa de quem boicotou o soares e dakele pseudo-poeta cheio de briosa e contra a co-inseneração, o que mostra logo o tipo de credibilidade retórica que poderia vir a ter SHAME ON YOU


WWW.MOTORATASDEMARTE.BLOGSPOT.COM

24 maio, 2007 13:35  

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