terça-feira, abril 03, 2007

ÓBIDOS WONDER



Há uns tempos que eu não passava por uma das mais belas vilas históricas de
Portugal. Cheguei curioso, disposto a observar as mudanças realizadas no mandato
de Telmo Faria, que tem sido apontado como um dos jovens autarcas-modelo do
país. Porém, a desilusão, posso dizê-lo, foi total: Óbidos mais parece um shopping
center
colocado num cenário histórico.
Bem sei que em vésperas dos espectáculos religiosos da Semana Santa, o excesso
de turistas e os bandos de crentes, não favorecem a pacatez bucólica da vila, mas
não foi isto que transtornou a minha visita, tanto mais que o chão das ruas atapetado
de cedro, murta, alecrim e rosmaninho, exalava odores magníficos. O que me
revoltou foi o novo desordenamento comercial, a profusão de casas de artigos
turísticos e outras lojas com deploráveis arranjos interiores "ao estilo antigo", e
nos exteriores, tabuletas, anúncios e toda a espécie de kitsch comercial espalhado
pela fachada de cada estabelecimento.
No meio de tudo isto, a que chamam "revitalização económica local", ainda julguei
que alguma estrutura cultural pudesse salvar a impressão que me ia ficando de uma
política autárquica desastrosa. Mas não. A prova-dos-nove foi o novo Museu
Municipal agora instalado no Solar de Santa Maria, substituindo o pequeno mas
precioso antigo museu. Negam-se aqui os saberes museológicos mais elementares,
a ponto de vermos aplicados elementos gráficos de apoio e legendagem com peso
visual equivalente ao das próprias peças em exposição, isto acompanhado de
letterings assustadores.
Pobre Oeste selvático, já nem Óbidos, a sua jóia da coroa, é poupada à ignorância
saloia. Bem podem os cartazes apelar ao voto nesta "maravilha/wonder" de
Portugal... ou talvez baste dizer que o crime contra o património histórico continua
a compensar.

Pintura > Josefa de Óbidos (1630-1684), Portugal
> Cordeiro Pascal, c.1870, Col. Museu de Évora.
[R]

Etiquetas: , ,

16 Comentários:

Anonymous Mário escreveu...

O mais provável é que preservação correcta não dê votos de uma forma proporcional ao seu custo.

03 abril, 2007 09:55  
Blogger bettips escreveu...

Saloios, é isso. O que o malfadado nos deixou. Novos, velhos, crianças, ainda saloios ao fim de tantos anos! Quando a cultura? Sim, porque isto é pior que deixar ao abandono. Como dizia Picasso,que não deixava limpar o seu estúdio, o pó conserva... Estas mentes e "esta pretensa modernidade", inventaram a destruição premeditada...all donkeys! Abçs

03 abril, 2007 22:19  
Anonymous Mister escreveu...

Há anos que não visito Óbidos...
A populanização de Óbidos assusta-me, da mesma forma que a algarvização do oeste com os seus campos de golfe, praias privadas e mau, péssimo urbanismo, me faz fugir ao invés de voltar.
Pode ser que seja das Autoestradas - a A8 já é a terceira maior do país em tráfego automóvel, apesar de ter menos de 6 anos - pode ser que seja...
É o desenvolvimento senhores, é o desenvolvimento! Será?

03 abril, 2007 23:08  
Anonymous Bolota escreveu...

Roteia,

bem escolhida a Josefa e bem escolhido o cordeiro do sacrifício a que estão "votadas" tantas vilas e cidades...

Estive há pouco tempo no norte do país e tive a visão oposta. Em muitas vilas e cidades, vi o cuidado da preservação a par de intervenções modernas, sim, sem o "armar ao pingarelho" que descreves de Óbidos. Mas apesar de tudo a maior catástrofe de gestão urbana continua a ser esta pobre capital, que já nem é limpa. Não deveria isto ser considerado um estado de emergência?

Bolota

04 abril, 2007 10:48  
Blogger Roteia escreveu...

Mário:
Concordo consigo. Mas um poder que investe tudo em clientelas será um verdadeiro poder?

04 abril, 2007 12:52  
Blogger Roteia escreveu...

Bettips:
É verdade, Picasso tinha razão. E custa compreender que quem não sabe de património tome decisões parôlas, por vezes ignorantemente criminosas, sem ter em conta os saberes especializados nesse campo.
Será falta de sentido de rigor, mas
porquê copiar o que está mal, quando não muito longe se pode observar exemplos bons e copiá-los bem?

04 abril, 2007 13:05  
Blogger Roteia escreveu...

Mister:
Será das autoestradas? Será que existem outras autoestradas que não sejam para o desastre da parolice?
É catástrofe das mentalidades do "desenvolvimento local", mentalidades que não se importam de matar a galinha-dos-ovos-de-ouro, apenas na ambição do lucro/poder imediato. Lucrar prejudicando, prejudicar lucrando. Rápido, barato e dá milhões. Repito: Pobre Oeste selvático.

04 abril, 2007 13:20  
Blogger Roteia escreveu...

Bolota:
Infelizmente, não tenho visto bons exemplos, nem no norte, nem no centro, nem no sul. Em alguns centros históricos sim, mas ao redor deles, nas zonas suburbanas continua o regabofe (será assim que se escreve?) das barbaridades lucrativas. Também em redor de Óbidos assim é.
Quanto à nossa capital, será que os eleitores, depois de 2 desastres consecutivos, pensam continuar a apostar no cavalo errado? E afinal porque não se movimentam esses eleitores contra a sua própria aposta?

04 abril, 2007 13:40  
Anonymous L'Oiseau Rare escreveu...

A devastação da paisagem urbana portuguesa perpetrada nas últimas décadas é integralmente imputável à dupla constituida por autarcas e construtores civis. É disso que estamos a falar. De crime, portanto. E impune. E altamente recompensado.

04 abril, 2007 16:37  
Blogger maria escreveu...

Folgo em ver que estás de boa saúde e lúcido como de costume.
Quanto a Óbidos é uma pena, parece uma feira. Estou a pensar voltar lá num momento em que não haja Semana Santa, Feira Medieval ou Feira do Chocolate... Quando será esse momento pacífico?

04 abril, 2007 19:05  
Blogger Roteia escreveu...

L'Oiseu Rare:
E depois há os eleitores que fecham os olhos a isto (ou não têm olhos, quer dizer, não têm sentido estético). E há também aqueles que tendo por função obrigar os outros a cumprir regras ou a criar condições para que as regras sejam cumpridas, nada fazem nesse sentido.

04 abril, 2007 19:56  
Blogger Roteia escreveu...

Maria:
Não me repugna que numa localidade parada no tempo, esvaziada de população e de vida própria, se criem artificialmente alguns eventos. O que repugna é a ausência de qualidade desses eventos.
Em tempos Óbidos já teve um festival de música antiga e uma bienal internacional de arte contemporânea, mas acabaram com isso, é claro, porque as feiras de chocolate fazem outro sucesso.

04 abril, 2007 20:25  
Blogger AM escreveu...

Visitei esse "pequeno mas precioso museu" há muitos, muito anos e guardo boa recordação da escala dos espaços e de uma certa "aura"... (mas "pode ser saudade"...)
Não sabia do novo museu, mas da última vez que visitei Óbidos, (também há muitos anos e também por alturas da semana santa...) já encontrei uma vila abandona e transformada em museu do kitsch turístico da "idade média" (tipo Walt Disney) para a classe média da capital em passeio saloio de fim-de-semana, e com tabuletas em madeira "chamuscada" a anunciar as tascas...
E Monsaraz, igual...
Triste país de Saloios...

08 abril, 2007 19:38  
Blogger Roteia escreveu...

Este comentário foi removido pelo autor.

09 abril, 2007 02:14  
Blogger Roteia escreveu...

AM:
O Museu de Óbidos foi de facto um museu exemplar, fundado em 1970 com o apoio institucional da Fundação Gulbenkian, que forneceu também o projecto museográfico.
A actual opção de transferir o antigo museu para um edifício maior, na mesma praça de Santa Maria, pareceu-me inicialmente uma ideia interessante, dada a escala e a visiblidade da nova localização. O que eu não contava é que se passasse "de cavalo para burro", ou seja, de uma museografia de excelência para uma museografia pacóvia. É triste, sim, porque passadas mais de três décadas sob a fundação do museu é inadmissível que os poderes locais tenham descido tão baixo, dando guarida a supostos "especialistas locais".

Já no que diz respeito a Monsaraz, não vejo comparação possível. Felizmente, a situação da vila alentejana ainda está bem longe da situação catastrófica de Óbidos.

09 abril, 2007 02:21  
Blogger Ver escreveu...

Na igreja matriz de cascais está uma parte considerável do espólio da Josefa de Obidos, cerca de sete grandes telas fantásticas. Quem por lá passou para ver os quadros pode concluir que as condições não são as melhores nem para quem pretende ver, nem para a "saúde" das obras.
Reunir a obra desta pintora num museu em Obidos era uma grande mais-valia para a vila e a Josefa também já merecia um bocadinho de reconhecimento.
rosa

24 abril, 2007 14:18  

Enviar um comentário

Ligações para este artigo:

Criar uma hiperligação

<< Home