quinta-feira, março 08, 2007

PARÁBOLA



E eu vou citar de memória, uma vez mais, o que ela me disse certa manhã, olhando
-me nos olhos. Refiro-me a um texto do Padre António Vieira que também ela citava
de memória, para mim:

"Havia um filósofo que todos os dias fazia o mesmo caminho entre a sua casa e a
universidade. E todos os dias, nesse percurso, encontrava um homem a partir pedra.
Certo dia, o filósofo decidiu abeirar-se do homem e
disse-lhe, condoído: "pobre
homem, que estais sempre a partir pedra, a partir
pedra ..." e, discorreu, de seguida,
acerca daquele trabalho penoso, das agruras da vida,
dos males do mundo. Ouvido
o discurso do filósofo, o homem que passava os dias a
partir pedra, levantou o olhar
do seu bloco de granito, e respondeu: "Não, eu não estou a partir pedra, estou a
construir uma catedral."
[R]

[Adenda > 10.3.2007]
Um esclarecimento tardio: é bem possível que a maioria das palavras desta breve
"parábola" de Vieira não seja fiel ao texto original. Afinal, quem conta um conto
acrescenta-lhe um ponto...
[R]

Pintura > Giovanni Bellini (c.1476-c.1516), Veneza, Itália
> Sacra Conversazione, 1505, Igreja de San Zaccaria, Veneza
[R]

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7 Comentários:

Anonymous Mário escreveu...

Pequenos passos bem guiados servem um objectivo maior, e não se deve confiar cegamente nas aparências.

09 março, 2007 13:03  
Anonymous BaLa escreveu...

Aproveitando o link para "ela", e fazendo a ponte com o texto da crucificação,acrescento que Cristo poderia ter dito : " Não estou a sofrer, estou a iniciar uma civilização"...

09 março, 2007 17:31  
Blogger Capitão-Mor escreveu...

Parabéns! Um dos melhores blogues que vi nos últimos tempos.
Abraço de além-mar!

11 março, 2007 21:16  
Blogger Roteia escreveu...

Mário:
É isso mesmo, uma obra pode estar repleta de pequenos gestos invisiveis.

Bala:
Ela diria, "antes não ter civilização". De facto, o culto do sofrimento é abominável. Sofrimento e culpa tornam-nos mais fácilmente domesticáveis.
Não acredito, não devo acreditar, em sofrimentos redentores. Mas é um facto que prazer e sofrimento são daqueles opostos a que não conseguimos fugir.

12 março, 2007 03:33  
Blogger Roteia escreveu...

Capitão-Mor:
Gratos pelas palavras de apoio, caro portuga. Abraços de aquém.

12 março, 2007 03:38  
Blogger claudio boczon escreveu...

imagino o quê aquele que estivesse a empilhar as pedras que este quebrava responderia ao filósofo que lhe disesse: "pobre homem, está sempre a construir catedrais..."

parabéns pelo blogue e obrigado por lembrar desta parábola e do aforisma sobre contar contos.

14 março, 2007 21:29  
Blogger Roteia escreveu...

Cláudio
Construir seja o que for exige-nos persistência e sentido de rigor. Quem fez subir as pedras das paredes e abóbadas de uma catedral teve por detrás quem imaginou, projectou, e talhou pedra a pedra com medidas exactas. E há sempre engenho, arte e esforço invisíveis por detrás de qualquer obra. Mas o "partir pedra" também é o apropriar-se do espírito das coisas.

Grato pelo seu comentário. Milagres da blogosfera..., que bom ser descoberto no Brasil, com tanto e tão pouco oceano entre nós.

15 março, 2007 03:18  

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