quinta-feira, agosto 03, 2006

Semelhanças e Diferenças [2]
BORDALLO PINHEIRO E MATISSE



Contrariamos aqui certas perspectivas economicistas, segundo as quais uma das
razões para o actual "atraso português" radica na pequenez e na pobreza territorial
do país. Pois se no passado fomos prisioneiros da nossa periferia geográfica, como
encarar a persistência de condicionalismos ao desenvolvimento no contexto da União
Europeia e do mundo globalizado?
Estamos convictos de que, antes de mais, devemos responsabilizar a nossa
mentalidade cultural por este estado de coisas.
Dos governantes exigir-se-iam fortíssimas e corajosas políticas culturais, recentrando
os gastos em formação de agentes e em formação de públicos como medidas de
investimento a longo prazo. Dos criadores e produtores exigir-se-iam abertura,
diálogo e ousadia. Dos media, exigir-se-iam estratégias culturais, uma vez que,
devido às guerras de audiências, corremos o risco de ver os orgãos de informação
transformados em meros focos de irresponsabilidade.

As duas peças reproduzidas, possibilitam-nos uma certa caracterização do estado das
artes e das mentalidades em Portugal e em França no início do século XX, ambas
realizadas por artistas proeminentes nos respectivos países :
O jarrão, peça cerâmica portuguesa de Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905),
caricaturista e ceramista, autor do ícone nacional Zé Povinho; e La Serpentine,
escultura de Henri Matisse (1879-1973), pintor francês e uma das principais
referências universais da modernidade.

Entre as duas peças um abismo: o jarrão de Bordallo, exibindo o pendor extravagante
e decorativo que viria a afirmar-se como tipologia regional na tradição cerâmica das
Caldas da Rainha, é uma quase-escultura, uma espécie de delírio estilistico "art-
nouveaux", que adiciona elementos vegetalistas e animalistas surrealizantes a um
objecto da tradição popular (o jarrão/bilha); La Serpentine, escultura em bronze,
mostra-nos a desconstrução do corpo feminino, procurando na pureza formal e nos
ritmos plásticos serpenteados uma ruptura com os cânones clássicos.



Separam, em suma, as duas peças e os seus autores, diferentes noções de ousadia e
diferentes tradições artísticas. Vistos hoje, à distância de um século, os contributos
artísticos que estas peças simbolizam, colocam-nos, a nós portugueses, na posição
fatalista de herdeiros do infortúnio?
[R]

Ver no post anterior, em Adenda > 7.8.2006, as semelhanças e diferenças entre
as duas imagens fotográficas
.
[R]

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7 Comentários:

Anonymous propranolol escreveu...

E eu a pensar em répteis (sardão, serpente), nas asas do jarrão e nos braços da mulher, nos olhares dos dois artistas, nos instrumentos de trabalhar o barro, nas batas brancas...
Pelo que vejo, agora, as semelhanças são todas aparentes. Contam só as diferenças, certo?

04 agosto, 2006 00:45  
Blogger Arrebenta escreveu...

Ora, muito obrigado pela visita :-)

08 agosto, 2006 01:48  
Anonymous Anónimo escreveu...

Acabo de conhecer este blogue, que me surpreende. Vejo-o como um estímulo à inteligência, à sensibilidade e à inovação, com causas. Estou fã!

Mariana C.

09 agosto, 2006 00:11  
Anonymous Roteia escreveu...

Obrigado Mariana C., pelas palavras de apoio. Volte sempre e participe nesta ciaxa de comentários.

09 agosto, 2006 00:16  
Blogger maria escreveu...

Assim parece: os fatalistas herdeiros do infortúnio até quando?

10 agosto, 2006 13:36  
Anonymous Roteia escreveu...

Até quando Maria? Até chegar a coragem para transformar os assuntos culturais em estratégias nacionais. Começando por assimilar a ideia de que os gastos com a vida cultural são um investimento indispensável.

11 agosto, 2006 02:52  
Blogger maria escreveu...

Por exemplo, mas receio que isso vá levar muito tempo.

15 agosto, 2006 09:39  

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