segunda-feira, agosto 14, 2006

ANIVERSÁRIOS E SALAMALEQUES



Vamos assistindo nos orgãos de informação a sucessivas releituras ou reescrituras
dos aniversários de protagonistas da História, que incluem (f)úteis branqueamentos
de ditaduras e ditadores. Os noticiários televisivos deste fim de semana estiveram
cheios de coisas assim, com indisfarçados hossanas e mal dissimuladas diabolizações.

A propósito do centenário do ditador
Marcelo Caetano, o afilhado Marcelo Rebelo
de Sousa, na sua actualizada "conversa em família" da RTP1, não mencionou, nem
de raspão, a conivência do marcelismo com a polícia política e a censura. Escolheu
o elogio, escolheu salvar a face ao padrinho Marcelo professor de Direito que,
segundo o afilhado homónimo, foi durante várias décadas o responsável absoluto
pelo "edifício legislativo" do regime salazarista. E que edifício! E que legislação!
Portanto, sobre a figura de Caetano como "presidente do conselho de ministros",
parece apenas ter sobrado o rigor do jurista e a grandeza política e moral do homem
íntegro, que não teve outro remédio senão continuar o ideário do seu antecessor,
mas contrariadíssimo, coitado.

Também a propósito do octogésimo aniversário do ditador
Fidel Castro, poucos
parecem interessados em esclarecer os vários lados da História. Vão-se preparando
horas e horas a fio de transmissão em directo das muito aguardadas exéquias
fúnebres e, enquanto se aguarda, sempre se vai aproveitando para ridicularizar os
intermináveis discursos de Fidel e salientar a ausência de liberdades políticas e a
perseguição aos opositores do regime. Evita-se, deste modo, analisar e comparar
com as anteriores, as actuais condições de vida do povo cubano, ou contextualizar
a acção de Fidel como resposta à ditadura corrupta que o precedeu e como exemplo
de resistência ao despotismo do vizinho norte-americano.

É muito útil mostrar vezes sem conta a imagem de Fidel Castro a tropeçar do
palanque e a espalhar-se no chão, do mesmo modo que é muito útil não mostrar
outras imagens incómodas. Quem se lembra de Cavaco a desmaiar no Palácio de
Belém durante a tomada de posse de Guterres?

E quanto às democracias, estarão elas isentas de pecado? Será que a liberdade de
informar e opinar não seria beneficiada com o exercício da objectividade?
Porque as ditaduras e os ditadores são o que são, mas talvez não tenham caído do céu
aos trambolhões. E os sectarismos de estimação, à direita e à esquerda, cada qual
defendendo os seus interesses ou as suas crenças com dogmáticas certezas absolutas,
apenas vêm radicalizar as perspectivas e as análises. Entre uns e outros, venha o
diabo e escolha.
[R]

Fotografia > Fernando Lemos (n. 1925), Portugal
> Manequim do Vespeira, Lisboa, 1952 (Col. Berardo)

Fernando Lemos fotografou O menino imperativo (
manequim, búzio e velas) de
Marcelino Vespeira (1925-2002),
na tripla exposição surrealista que estes
autores apresentaram com Fernando de Azevedo (1923-2002), na Casa Jalco
em 1952.

Hoje na colecção do Centro de Arte Moderna/F.C. Gulbenkian, esta obra de Vespeira
é a única
com manequins que sobreviveu às várias que realizou . As restantes são
apenas conhecidas através das fotografias de Lemos.
[R]

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8 Comentários:

Blogger Katrola escreveu...

Pela parte que me toca, dispenso o "pensamento" marcelista. Quer o do padrinho, quer o que é transmitido na televisão, através das "conversas em família" do afilhado. A democracia portuguesa, exige um jornalismo onde as verdades históricas sejam contextualizadas, debatidas e confrontadas. Onde a busca das verdades seja, por outro lado, um exercício permanente de crescimento e maturidade do país.Isso será possível, com a descoberta de outros mundos, que estejam para lá do "Portugal dos Marcelos", com que por vezes nos tentam entreter, adiando o nosso presente.

14 agosto, 2006 18:56  
Anonymous Roteia escreveu...

Katrola:
O Marcelo afilhado lembra-me certos personagens queirosianos, videirinhos, brilhando nos corredores do poder (ou será nos subterrâneos?...), para pasmo da populaça.

E as suas tão "celebradas" inteligência e cultura, ter-se-ão ficado no século XIX, ou nos tempos do Marcelo padrinho?

14 agosto, 2006 19:38  
Blogger maria escreveu...

Não há que ficar espantado: o Marcelo é o que é.
Quanto a Cuba, se vivesses lá talvez não pudesses escrever o que escreves aqui.

15 agosto, 2006 09:33  
Anonymous Roteia escreveu...

Maria:
Do Marcelo afilhado já nada me espanta. Mas fico indignado que tenha dito o que disse a tantos portugueses, sem o tal contraditório.
E sobre Cuba, não sei se te referes à liberdade de expressão. Queres explicar melhor?

15 agosto, 2006 10:24  
Blogger antimater escreveu...

Pois é! Mas o problema é que o minuto está por uma fortuna e só dá para contar meias-verdades!

15 agosto, 2006 19:43  
Anonymous Roteia escreveu...

Antimater: E há sempre coisas mais excitantes para contar, romances de faca e alguidar, bombardeamentos em directo, contratações de futebolistas... e por aí fora.

16 agosto, 2006 01:18  
Blogger bettips escreveu...

Katrola: eu tb dispenso o brilhozinho impúdico de quem "não tem nada a ver com isto"! E a todos se deveriam pedir contas do que fizeram - e não fizeram, pelos corredores do poder! E nas suas Sociedades. Em vez das vénias televisivas. E dos serões de província, ficamos todos espertos com o que o prof nos explica, parece um homem sério e independente ... e toca todos os instrumentos. Sempre Portugal se maravilhou com malabarismos, é só ter paciência e procurar a impunidade: lembro aquele snr que só ganhava o ordenado mínimo por ex.e o disse na tv. Quanto ao Pad. tivemos a "bastante" continuidade que por ele, ainda era. Mas o Portugal democrático até o tratou bem: como seria para receber a pensãozita este tempo todo? Diabo, é que são muitos anos! ... Eu não percebo estes meandros e estes desplantes! 'Bora, já desabafei ...

23 agosto, 2006 16:30  
Anonymous Katrola escreveu...

Bettips:
Quanto ao professor e à sua seriedade, lembre-se! O professor praticamente não dorme. Ou se dorme, é muito pouco, segundo os seus cronistas. Daí a facilidade com que ele delira.
Não se esqueça que o professor começou a ser conhecido por inventar factos políticos. Ou seja, situações que ou não existem ou, existindo, o professor teima em conferir-lhe uma dignidade histórica, a partir daquilo que ele imagina que seja a História. Enquanto o professor não dormir e falar na televisão, estamos relativamente descansados.
Saudações ultraperiféricas.

23 agosto, 2006 17:38  

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