quarta-feira, maio 24, 2006

FIB



Do Butão, um reino tradicional budista situado nos Himalaias, surge-nos um conceito verdadeiramente vanguardista que actualmente tende a ser estudado nas sociedades
ocidentais: a Felicidade Interna Bruta ou FIB.
Um exemplo de como os centros podem aprender com as (ultra)periferias.

O rei Jigme Wangchuck, observando que os restantes "países em vias de
desenvolvimento" estavam todos centrados na preocupação com o crescimento
económico, no comércio e no Produto Interno Bruto (PIB), alienando muitas vezes
a cultura, a dignidade e a qualidade de vida, decidiu que as políticas do seu governo
deveriam contemplar também a felicidade dos cidadãos. Estabeleceu então quatro
pilares governativos: (1) a promoção do desenvolvimento socio-económico
equitativo e sustentável; (2) a preservação e promoção de valores culturais;
(3) a conservação do ambiente natural; (4) o estabelecimento de um bom governo
(começou por criar eleições livres).

Este é um trabalho em progresso que parte da interrogação de como as mudanças
do nosso tempo - o desenvolvimento da informática, a diminuição da diversidade
biológica e cultural e a rápida automatização social e económica - afectam as
perspectivas de felicidade. Por exemplo, como é que a par de uma maior rapidez
de comunicação através das tecnologias, se assiste ao isolamento/solidão cada vez
maior do indivíduo.
Facilmente se entenderá que o nosso típico indicador de bem-estar - a capacidade
de consumo - é limitado face àquilo que é tão inovador e simultâneamente tão
primitivo como isto: a procura da felicidade. No entanto isso reflecte a forma
simplista e desleixada com que as sociedades pós-industriais abordaram o tema.

Em 2004, uma conferência inicial sobre a FIB teve lugar no Butão. Esta conferência
foi seguida por outra, no Canadá, em Junho de 2005. Os participantes examinaram
as iniciativas bem sucedidas que no mundo inteiro tentam integrar o
desenvolvimento económico sustentável e equitativo com a conservação do meio
ambiente e a coesão social e cultural. O grande desafio da FIB é a exigência de um
modelo alternativo de desenvolvimento.
A grande linha estratégica: a cultura não é somente um factor indicativo de um
padrão de desenvolvimento; a cultura é a orientação crítica que move todo o padrão
de desenvolvimento colectivo.

Será mais difícil que subir os Himalaias?
[B]

Fotografia > Janie Regnerus (n. 1971)
> Moss, 2001 (Col. Galerie Anne Villepoix)

Integrando a exposição Mulheres - 26 Anos dos Encontros de Fotografia de Coimbra,
(Centro de Artes Visuais-CAV, Coimbra) esta fotografia da holandesa Janie Regnerus,
apresenta uma rapariga imóvel, com as pernas tintadas de verde musgo, no cenário
paradisíaco de uma floresta. Deste modo a autora propõe uma imagem enigmática que
questiona a solidão da vivência contemporânea face à natureza.
[R]

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23 Comentários:

Anonymous propranolol escreveu...

Olá BaLa, antes de mais, bem vinda aos posts do Ultraperiférico!
Espero que este teu texto inaugural seja uma pedrada no charco.
A noção de felicidade dos "consumidores consumidos" do Ocidente, bem poderia ser substituída pela do FIB, que parece mais adequada à precária condição humana.

24 maio, 2006 01:33  
Blogger JOPP escreveu...

Pés na terra, cabeça no céu. Boa BaLa!

24 maio, 2006 16:46  
Anonymous BaLa escreveu...

E como estava com a cabeça no céu enganei-me no nome do sábio rei. Aqui fica a correcção:Jigme Wangchuck.

24 maio, 2006 18:17  
Anonymous Aluizio Amorim escreveu...

Caríssimo Roteia:

foi bom vc me avisar sobre este excelente texto de Bala. Realmente, como diz um dos comentaristas acima, é uma pedrada no charco. As últimas linhas que dão o fecho ao post são de especial significação sociológica. Diz Bala: "A grande linha estratégica: a cultura não é somente um factor indicativo de um
padrão de desenvolvimento; a cultura é a orientação crítica que move todo o padrão
de desenvolvimento colectivo." Tem razão Bala no que tange ao fato de que "a cultura é a orientação crítica que move o padrão de desenvolvimento coletivo".
Esta é uma colocação que combina com a teoria sociológica de Max Weber, que privilegiou o momento "superestrutural" onde repousam as ideologias, as crenças e os valores que irão dar forma à ação social influindo no seu decurso. Esta é a interessante flexibilidade da sociologia weberiana. A weltschauung é constituída pela estrutura, representanda pelas relações econômicas mas, sobretudo, pela superestrutura, plano de eminente dominância cultural. A interpretação weberiana não é bem recebida por certa intelectualidade marxista. Weber não disse que Marx estava completamente errado. Entretanto, foi mais além , ao contemplar a visão de mundo do sujeito e os valores que ele leva em conta para concretizar determina ação. Em "A ética protestante o espírito do capitalismo" Weber imprime o viés essencialmente cultural para dar conta de uma variável importantíssma na emergência do capitalismo a qual reside sobre como pavimentar o caminho da salvação da alma. A ação do crente protestante sob a influência das pregações de Lutero e Calvino, combinou-se com as exigências da economia capitalística. A ausência, segundo esses teólogos, sobre qualquer forma de antever o destino da alma, face aos insondáveis desígnios de Deus, requeria na vida terrena hábitos espartanos, trabalho incessante e a negação aos prazeres mundados. O resultado disso foi: trabalho+poupança+investimento+trabalho e assim sucessivamente. Seria mais ou menos o "material" construindo o "sobrenatural". Deve-se à crença protestante boa parte do desenvolvimento capitalístico. Entretanto, esse desenvolvimento material está maculado pelo equívoco da existência de uma divindade e na sobrevivência da alma. Ao meu ver, as angústias e o sofrimento humano são apanágio desta nossa civilização. Weber deixa implícito isto que coloco e que está vazado de sua visão trágica no que tange ao futuro da civilização ocidental. Para Weber nada deterá o desenvolvimento capitalístico que aprisiona o homem, adiando sempre, para depois, um tempo de felicidade. A razão advinda com a filosofia do iluminismo que sepultou as trevas medievais, tem um aspecto corrosivo representado pelo desencantamento do mundo, ou seja, a racionalização de todas as esferas da vida.
Isto não quer dizer que não devemos lutar para aumentar os índices de FIB.
Em tempo: permaneço sempre aberto às críticas e apontamentos naquilo em que tiver equivocado. É dessa interação e troca de conhecimento e experiência que somos capazes de crescer um pouco.

Cordial abraço do

Aluízio Amorim
http://oquepensaaluizio.zip.net

25 maio, 2006 03:21  
Anonymous BaLa escreveu...

Aluízio,
que bom que foi ler o seu comentário. De facto o assunto dá-nos que pensar…Deu-se, entretanto, uma evolução na forma como as sociedades vivem o valor "dinheiro". Na primitiva realidade capitalista, este era destinado à poupança ou à criação de mais trabalho, segundo a ética protestante, virada para o ascetismo, tornando-se um símbolo de disciplina moral. Nessa perspectiva, se o tempo é igual a dinheiro ("tempo é dinheiro"), qualquer tempo que não seja aplicado a trabalhar custa o dinheiro que poderia ter sido ganho. Criou-se a religião secular do trabalho, em que o pecado mortal é perder tempo ou dinheiro. Na sociedade de consumo actual, a visão ascética deu lugar a um ciclo em que o tempo de trabalho é o tempo que vendo em troca de dinheiro e o tempo de não trabalho é o tempo que compro com esse dinheiro. Como refere, Aluízio, Weber previa o aprisionamento do homem neste ciclo. Resta saber se tinha razão quanto ao facto de ele ser inquebrável… não a partir de baixo - da estrutura económica, como defendia Marx - mas a partir de cima - da superestrutura humana.

25 maio, 2006 13:12  
Anonymous Aluizio Amorim escreveu...

Bala,

belíssima e procedente essa sua análise que nos pode também remeter a Simmel, com sua Filosofia do Dinheiro. O que se tem ao nível empírico é que o utopismo contido em Marx, raramente encontrado em Weber, que teria uma visão trágica do futuro com o homem submetido à jaula de ferro, com dizia ele, parece realizar-se mais do que a visão libertária marxista. Nos últimos tempos tenho pensado muito sobre o resgate do liberalismo. Afinal,foram as revoluções burguesas que acabaram, por exemplo, com as monarquias absolutistas. Trata-se de resgatar esse viés revolucionário da burguesia de então, lá distante, na fundação do Estado do moderno. Com o desaparecimento do chamado socialismo real e o fim da guerra fria ficamos meio perdidos, órfãos de uma utopia que desenhava um futuro libertário. A solução de todos esses problemas e sobretudo de como conseguir maiores índices de FIB, creio que será uma luta perene da humanidade. Creio mesmo que a filosofia ocidental origina-se dessa angústia e na tentativa de solucioná-la. Preocupa-nos hoje a mesma coisa que instigava o pensamento dos gregos.
De toda sorte, reafirmo que a sua análise é muito procedente e competente, denotando rigor conceitual. Muito bom.

Cordial abraço do

Aluízio Amorim
http://oquepensaaluizio.zip.net

25 maio, 2006 17:24  
Blogger João Dias escreveu...

Eu acho que isto prova que a palavra utopia no ocidente tem de passar a ser sinónimo de: realidade incómoda que não convém abordar.
Ora esta é uma realidade incómoda porque já há quem viva a sua utopia, o problema está em que é uma utopia que tem por base o pesadelo da exploração. A questão do tempo e do dinheiro é de facto posta de uma forma perversa, as pessoas talvez não tenham pensado que o expoente máximo da rentabilidade seja o desperdício total das suas (nossas) vidas. A "verdadeira" rentabilidade é o compromisso entre uma vida de prazeres e sacrifícios, mas só os sacrifícios necessários, não devemos preconizar o sacrifício de uns por utopias de outros.
Aliás a razão porque a utopia capitalista persiste nos nossos dias, reside em que de facto existe que viva esse sonho, se estivéssemos de facto num mal-estar generalizado não havia tanta dificuldade em mudar os pergaminhos desta realidade.

Penso que se calhar uma das problemáticas de implementação de políticas "FIBianas" reside na questão de se querer um bem-estar alargado ou de simplesmente se querer o bem-estar...

25 maio, 2006 18:54  
Anonymous Max @ Devaneios Desintéricos escreveu...

"Será mais difícil que subir os Himalaias?"

Muito mais difícil, certamente.

Bem vinda à blogosfera, BaLa. Adivinha-se mais um contributo de exceleência a que o Ultraperiférico já nos habituou...

25 maio, 2006 22:03  
Anonymous Roteia escreveu...

Quando tudo parecia caminhar para o abismo, eis a FIB, um sinal de que a inteligência e a criatividade do ser humano não se esgotaram.
Partindo da questão da utopia, referida pelo João Dias, digo que a utopia, enquanto desejo e motor de mudança, é um património do qual a Esquerda não deve abrir mão. Porque para a Direita o conceito não é mudar, é manter.
Curiosa é a definição dada por um velho dicionário à palavra UTOPIA: "Sistema teórico de governo, em que se consideram felizes tanto os governados, como os governantes".
Penso no entanto que a questão central do texto de BaLa é apontar a FIB como uma alternativa ao despotismo dos mercados e ao sistema economicista, essa ideologia única que domina o mundo contemporâneo. Aqui esbatem-se os conceitos de Esquerda e Direita (socialismo vs. capitalismo), emergindo talvez, oxalá, uma luz ao fundo do túnel.

Vamos ver como reagem os agentes do poder político, os partidos, os interesses instalados que os suportam, mais o jogo das ambições sociais. E vamos ver se no meio disto tudo o povaréu abdicaria do carrito ou de outras "necessidades básicas" em troca da felicidade própriamente dita.

Digo como Ernesto de Sousa: "Révolution, je t'aime encore"

26 maio, 2006 08:19  
Blogger Heliocoptero escreveu...

O FIB, por ser um conceito originário da experiência de abertura do Butão, é também um conceito com raízes nas noções budistas de interdependência, harmonia e felicidade. É, em muitos aspectos, um forte contraste com o modelo chinês ali mesmo ao lado.

Será interessante ver como é que alguma da Esquerda portuguesa, de tão apegada que está à ilusão de um comunismo chinês, irá reagir a um modelo de desenvolvimento saído dos ideiais de uma monarquia budista, tão próxima do Tibete.

26 maio, 2006 15:26  
Blogger Katrola escreveu...

A BaLa é mesmo certeira. O Aluízio e os restantes comentadores que o digam.
Fiquei encantado com a consistência do texto da BaLa e com o debate que se seguiu.Tratam-se de textos que, no seu conjunto, podem contribuir para que em Portugal, como noutras paragens, o FIB começe a fazer parte dos diferentes relatórios institucionais, dos programas políticos e, sobretudo, da vida das pessoas. É necessário reformar e revolucionar esteriótipos de vida e de pensamento. O texto é um bom exemplo, de como fazer. Parabéns.

26 maio, 2006 16:36  
Anonymous BaLa escreveu...

Faltava esta achega do Heliocoptero ao debate (bingo!). Estamos a falar de uma filosofia profundamente humanista - e humanismo, de facto, é um conceito estranho ao modelo chinês. Segundo a filosofia budista (e só temos vindo a falar de pensadores ocidentais, no que não há nenhum mal), é no indivíduo que reside a essência, a chave da harmonia e da liberdade.Elas atingem-se pelo conhecimento.
O não (re)conhecimento desta natureza "divina" do próprio ser humano é designado na tradição budista como a "ignorância fundamental". Há uma frase frequente nestes ensinamentos: "Todos os seres procuram a felicidade mas a maior parte deles desconhece quais as suas verdadeiras causas".

26 maio, 2006 16:44  
Anonymous H escreveu...

Este excelente texto de BaLa sobre o FIB, é mais um bom e clarividente indicador, de como as necessidades humanas estão a ser postas de lado, face às necessidades financeiras, numa sociedade que vive em função de objectos, sejam humanos ou materiais (todos transacionáveis no mercado bolsista, como é evidente).

Ou seja, tudo tem e todos temos um valor para a sociedade, que não é nem "espiritual" nem "humano", mas sim "monetário".

Ainda sobre Felicidade, esta palavra está envolvida de uma largueza e cosmopolitismo humanista (desculpa BaLa), que está aplicado de uma forma tranviada na nossa sociedade. Como bem diz BaLa, pagamos para ser felizes e trabalhamos para pagar essa felicidade. Esta noção de trabalho está também ela invertida.
Trabalhamos sim, para ser felizes, porque parte da nossa Felicidade advém também ela de se fazer aquilo que se gosta, aquilo que se ama, com quem se gosta.

Mas também nós somos motores desta toxicodependência económica, nas barreiras e fronteiras que construimos e impomos, em função do peso que damos ao dinheiro ou à falta dele na nossa vida. Até onde estamos dispostos a abdicar dos valores essenciais do ser humano - e dinheiro não é um destes valores - para comprarmos Felicidade "fast-food" a metro ou ao kilo.

Fico-me por aqui, que me alonguei um pouco mais do que tinha pensado.

Pelo teu texto balísticamente certeiro parabens.

Sê bem-vinda ao Ultraperiférico!
Abraços,
H

27 maio, 2006 14:13  
Blogger Arrebenta escreveu...

Já está nos "links"

28 maio, 2006 16:04  
Anonymous BaLa escreveu...

Katrola e Agá, meus caros colegas do Ultra:avançam duas perspectivas com as quais concordo totalmente. Por um lado, a FIB vai ter de levar um empurrão instituinte e institucional, no sentido de passar a ser uma realidade perante o colectivo (Katrola); por outro, o trabalho é individual (Agá). Muito obrigada pelas vossas simpáticas palavras.

João Dias: parece identificar a "utopia" ao bem estar material (possuir muito dinheiro),sendo que os que exploram já alcançaram essa meta e os explorados (ainda) não. Esta visão materialista - comum aos regimes marxistas e capitalistas - está na génese da ditadura da economia, precisamente. Estamos a falar dos antípodas do conceito FIB...

29 maio, 2006 10:39  
Blogger RatherCynical escreveu...

Bala,

Que texto tão bonito e quão refrescante é esse conceito da FIB.
Só não fico tão certo é em relação aos centros e às periferias, ultras ou não - o etnocentrismo é algo que à FIB também nada diz - e quão centrado é esse reino do Butão.

UltraFelicidade para todos!

30 maio, 2006 15:53  
Blogger João Dias escreveu...

Bala:
Não terás compreendido (espero que não "estranhes" o tratamento na segunda pessoa do singular) o meu registo irónico e não te censuro por isso porque as palavras escritas não fazem soar a voz mordaz com a qual desenhei mentalmente tal argumentação.
Assim sendo e sem ironia escrevo novamente para clarificar:
Percebi o contexto de satisfação pessoal que não está associada à satisfação material(ista).
Quando falei na utopia dos outros, quis ironicamente dizer que aquilo que podia ser utopia numa sociedade justa é hoje a dura realidade para quem não atropela os direitos dos outros, paralelamente, aquilo que é uma utopia na nossa realidade capitalista é uma real possibilidade de sociedade.
No entanto existe matéria da qual discordo, a satisfação das necessidades básicas materiais é vital para o ser humano, como material necessário entenda-se tudo aquilo que é indispensável à vida: comida, cuidados médicos, ensino (livros)..etc.
Assim sendo a minha realização não materialista está intrinsecamente associada à minha realização materialista porque por muito que queira (e quero) estar livre ser matéria e depender da matéria, não consigo, não conseguimos.
Não concordo sequer que o marxismo esteja na origem da ditadura da economia, antes demais a economia é produto humano regulado (se quisermos claro) pelas nossas democracias e exigências de justiça. O marxismo alertou para o caminho que seguiria uma visão de concentração de capital, ou seja alertou para a ditadura da qual acusas de ser responsável, a economia só é ditadura se fizer reféns, entre esses reféns encontram-se os direitos individuais, a cultura, a justiça, a equidade...
No entanto não "existe economia", existem economias, é possível exercer essa actividade humana sem no entanto fazer os tais reféns.
Queria talvez deixar a ideia de que de facto concordo que precisamos de nos sentir realizados "espiritualmente", e que quando falo de satisfação material falo do essencial (não caprichos), e dessa satisfação essencial depende a nossa própria existência e assim sendo não vejo como esteja esta necessidade nos antípodas do conceito FIB, até porque o FIB promove qualidade de vida e essa está de forma irreversível, brutal e inalianável ligada a "materialismos" que nos permitem a sobrevivência.

30 maio, 2006 19:02  
Anonymous BaLa escreveu...

Caro João Dias,
Tudo bem com a segunda pessoa do singular!!

Estamos de acordo quanto ao facto de a FIB contemplar obviamente as condições materiais - elas também fazem parte do programa. O problema é quando os objectivos se esgotam nessa dimensão materialista.

Não estamos de acordo quanto à inocência do marxismo neste estado de coisas. Dizes: "O marxismo alertou para o caminho que seguiria uma visão de concentração de capital, ou seja alertou para a ditadura da qual acusas de ser responsável, a economia só é ditadura se fizer reféns, entre esses reféns encontram-se os direitos individuais, a cultura, a justiça, a equidade...". Ora, o que me parece é que, se alertou, não praticou. Porque na prática tornou reféns esses que designas: os direitos individuais, a cultura, a justiça e a equidade...
Pelo que mantenho que as ideologias materialistas nos afastam da FIB.

31 maio, 2006 12:16  
Blogger João Dias escreveu...

Bala:
Está aí uma confusão, aliás na qual a direita joga muito bem, que é entre a prática dos regimes comunistas (Estaline, Lenine) e o Marxismo.
O tempo é muito importante e Marx morreu em 1883, antes dos regimes comunistas, os regimes de Estaline e Lenine são uma perversão do Marxismo.

É o mesmo que confundires o actual regime chinês com algum tipo de socialismo, aquilo é a antítese do socialismo.

31 maio, 2006 13:23  
Anonymous BaLa escreveu...

Caro João Dias,
Não há confusão nenhuma. Os regimes são inspirados por ideologias e o argumento comumente utilizado por alguma esquerda é negar essa inspiração marxista de vários regimes comunistas. Estes poderão ter um cunho mais estalinista, mais leninista, mais castrista, mas a inspiração ideológica está lá. Os homens morrem, mas as ideias ficam. Há que saber aceitar as consequências e não nos caem os parentes na lama se assumirmos as fragilidades de uma ou outra ideologia.

Por outro lado, se a minha visão das coisas coincide com um argumento apresentado pela direita,que devo fazer? Mudá-la em função dessa constatação?
Na discussão de ideias, as etiquetas têm, na minha opinião, pouca utilidade.
Até uma fotografia a "preto e branco" comporta múltiplos cambiantes de cinzento...

31 maio, 2006 14:34  
Blogger João Dias escreveu...

Bala:
Antes de mais não te quis associar à direita, longe disso, disse de forma inocente que a confusão que tu farias seria igual a um processo intencional que a direita usaria para lançar a confusão. Ou seja tu farias confusão aonde a direita lançava de propósito a confusão.

Claro que esses regimes tiveram inspiração Marxista (aliás foi o que eu disse ao falar em "perversão do Marxismo"), mas o que não se deve confundir é a ideologia com a sua prática errada. Uma ideologia que preconiza a redistribuição da riqueza não morre só porque alguém a aplicou através de uma ditadura sanguinária.
A matemática não morre porque alguém a ensina de forma errada, a cultura não morre porque alguém a conspurca...não é assim???
Portanto, para clarificar pergunto-te o que está intrinsecamente enraizado na ideologia que seja nocivo? sendo que a questão do materialismo não se aplica porque se trata da questão de redistribuição, e a redistribuição implica apenas satisfazer as necessidades básicas do indíviduo.

31 maio, 2006 18:43  
Anonymous BaLa escreveu...

João Dias,

Apenas um exemplo de algo que está mal na teoria (na minha opinião, claro): a preconização da ditadura - do proletariado, OK, mas ditadura.

Não será demasiada coincidência que todos os regimes que "tentaram" aplicar a ideologia, a tivessem deturpado?

31 maio, 2006 19:04  
Blogger João Dias escreveu...

Bala:
A linearidade na leitura pode não nos levar a perceber o alcance de certas palavras.
Marx também falava na ditadura da burguesia, ou seja ele diz que a própria democracia é uma forma de ditadura porque subjuga uma vontade minoritária a uma maioritária. Portanto ele analisa a democracia com tal profundidade que vislumbra a própria ditadura dentro da democracia.
É uma "ditadura" necessária, os países precisam de ter um só rumo e por isso uma vontade maioritária sobrepõe-se a uma minoritária, era à volta deste conceito que ele defendeu a ditadura do proletariado.
Ou seja estava a ser criada uma classe tão numerosa que naturalmente, e na base da democracia e não da ditadura, essa classe acabaria por liderar.
Fica aqui um excerto do "Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engel" de 1848, sendo este trecho da autoria directa de Marx e não uma interpretação do mesmo:

"Já atrás vimos que o primeiro passo passo na revolução operária é a passagem do proletariado a classe dominante, A LUTA PELA DEMOCRACIA."

31 maio, 2006 20:04  

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